sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Rosinha venceu de goleada

Quando os blogs repetem frases e palavras das perguntas e respostas dos candidatos, não auxiliam em nada o leitor que, se está interessado, obviamente está vendo o debate. Além do mais, não se reproduz tudo o que os candidatos dizem. As frases ficam cortadas, sem sentido. Porém, creio que melhorarão no futuro.

O que os leitores dos blogs querem saber, além da notícia, é a análise franca, aberta, do debate. E é isso que tentamos fazer. Aliás, fizemos nos debates anteriores e neste, começamos agora.

Primeiro, como dissemos anteriormente, não houve novidades em relação a propostas. Os ataques entre os candidatos sofreram uma redução substancial. Rosinha manteve-se segura e propositiva. Arnaldo é o que poderia ser chamado de "enrolão". Tenta ironizar e se dá mal, pois não tem competência para fazer ironias sem perder o norte.

Rosinha consegue fustigar o candidato sem perder o rumo, sem deixar de fazer propostas claras sobre o assunto em pauta. Já Arnaldo nem responde nem fustiga bem. Um pessoa que foi prefeito por quase 7 anos, com a fortuna que recebeu dos royalties do petróleo, não pode ser tão ruim. Mas tem uma explicação: ele pouco fez pelo município, criou um sistema de corrupção jamais imaginado e gastou o dinheiro dos royalties com ele próprio, sua família, seus amigos e na base eleitoral que criou.

Por isso mesmo suas contas foram reprovadas, foi cassado (voltou por conta de uma liminar), está impugnado, seu mandato de deputado está sub judice, foi chamado de ladrão por Garotinho e não respondeu nem processou o ex-governador e, se perder o poder, será preso em pouco tempo, tantos são os processos contra ele. Teve também um seu pupilo cassado e o outro afastado da prefeitura (voltou por comnta de uma liminar). Ou seja, é um político sujo, imoral. Não poderia responder a questões sérias com seriedade.

Já Rosinha fala com segurança porque não tem processo contra ela. Aliás, o que ela e o marido sofrem e todos sabem é uma perseguição política também jamais vista. Só o Brizola sofreu tanto, mas não no seu estado, na sua cidade. Suas contas foram aprovadas com louvor. Foi elogiada até pela Firjan.

Arnaldo mente até quando diz que é amigo de Sérgio Cabral e de Lula. Amigo? Desde quando? Rosinha fez muitas obras importantes em Campos e Arnaldo dizque ela nada fez. Elogia Sérgio Cabral que, em dois anos de governo, não fez absolutamente nada em Campos nem em lugar algum.

Mas isso todos já sebem. Só vota em Arnaldo quem está levando vantagem financeira ou não gosta de sua cidade. Ou ainda, pensa em levar vantagem como os novos ricos de Campos. Dizer que é sério, ama a cidade e vota em Arnaldo é mentira. Pode até anular o voto, porque não gosta de Rosinha, mas votar em Arnaldo, jamais. Quem vota é porque não é cidadão, não deseja o bem de sua cidade.

Quem assistiu o debate na Record e, agora, na InterTV, constatou que Arnaldo é um incompetente, um mentiroso, um político sem rumo, sem trilhos, sem proposta. Seu filho, ao falar no último programa de TV do candidato, nem parece o mesmo Caio oportunista, malcriado, autoritário e esbanjador do dinheiro fácil que recebe dos cofres públicos. Arnaldo, ao elogiar Ilsan no debate, nem parece estar falando de uma mulher sem pudor, autoritária, perseguidora, processada por roubo do dinheiro público.

Faltou defender Chocolate, seu ex-motorista que é dono de muitos imóveis na entrada da Penha. Ri à toa ao falar com os amigos que acertou na loteria ao se tornar amigo de Arnaldo e vai viver muito bem o resto da vida, pois vai receber aluguel desses muitos imóveis. Faltou defender os Olavinho, os Gugu, os Quintanilha, os Tinhos, que nada tinham e tornaram-se proprietários de imóveis, comércio, muitos veículos, casas na praia e dinheiro no banco.

O governo de Arnaldo foi um desastre, assim como este de Mocaiber. Carlos Alberto CAmpista, cassado, tentou romper com a corrupção desenfreada, mas foi cassado por causa dela no governo de Arnaldo. Tentou romper sabendo que jamais conseguiria, pois foi eleito justamente pela corrupção.

Neste campanha Arnaldo e seus asseclas tentaram misturar no mesmo balaio Garotinho e Rosinha. Não conseguiram. Pode-se discordar de Garotinho por seu jeito de fazer política, por suas opiniões, mas jamais porque é desonesto ou roubou o dinheiro público. Ou compactuou com a corrupção. Ou não teve autoridade como governante.

Tudo isso ficou muito claro nos debates, principalmente nos dois do segundo turno. Se houvesse uma nota a ser dada ao desempenho dos dois candidatos acertaria quem dissesse que Rosinha ganhou de goleada. Mais que os cinco a zero do Flamengo sobre o Coritiba.

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

Jakobskind em artigo sobre Fausto Wolff

Meu amigo Humberto Rangel enviou-me o artigo que Jakobskind escreveu sobre Fausto Wolff. Vale a pena lê-lo (aqueles que sabiam da existência daquele que considero o jornalista mais completo da imprensa brasileira). Vamos a ele:

Morre Fausto Wolff, um oásis na imprensa diária

Mário Augusto Jakobskind, do Rio de Janeiro

Ao som da Internacional, de Carinhoso e de Cidade Maravilhosa, o hino do Rio de Janeiro, executados por dois integrantes da Banda de Ipanema, os amigos se despediram do escritor e jornalista Fausto Wolff, que morreu na sexta-feira à noite vítima de disfunção múltipla dos órgãos. Seu corpo foi cremado no cemitério do Caju, no Rio de Janeiro. Aos 68 anos, Fausto era considerado um oásis na imprensa diária brasileira, com a sua coluna no Jornal do Brasil, onde por mais de dois anos conseguiu romper com a mesmice, o senso comum e o pensamento único.

Não poucas vezes, segundo o jornalista Sergio Caldieri, o Jornal do Brasil foi pressionado para demitir Fausto Wolff, sobretudo por entidades da colônia judaica, em função do seu posicionamento favorável à causa palestina. O empresário, Nelson Tanure, proprietário do Jornal do Brasil, presente ao velório, confirmou o que disse Caldieri, representamte do Comitê Palestina-Viva Intifada.

Irreverente e defensor incondicional do ideário socialista, Fausto começou cedo no jornalismo. Aos 14 anos, em Porto Alegre, já circulava nas redações de jornais e em pouquíssimo tempo tornou-se repórter policial, dos mais brilhantes, por sinal, segundo testemunhas da época.

De família pobre, Faustin Von Wolffenbüttel, - o verdadeiro nome de Fausto - filho de imigrante alemão, deixou Santo Ângelo, cidade onde nasceu, indo trabalhar na capital gaúcha. A sua opção pelo socialismo, segundo o próprio Fausto, ocorreu já naquela época, quando constatou na própria pele como os pobres eram discriminados pela elite bem nascida.

Aos 18 anos foi para o Rio de Janeiro passando a trabalhar em vários jornais e canais de televisão. Depois do golpe de 64 circulou pela Europa, onde tornou-se professor de literatura brasileira, em Nápoles, na Itália, e em Copenahgue, capital da Dinamarca.

Fausto esteve em Saigon, então capital do Vietnã do Sul, cobrindo a guerra do Vietnã para uma agência de notícias. Em depoimento no Youtube, Fausto com toda a irreverência que lhe caracterizava, assinala que circulava pela noite de Saigon com uma plaqueta que o identificava como jornalista brasileiro, para que “não pairasse nenhuma dúvida”.

Ao retornar ao Brasil participou ativamente em O Pasquim, tornando-se um dos seus editores juntamente com Jaguar e Ziraldo. Ricky Gooddwin, secretário de redação da publicação recorda uma passagem pouco divulgada de Fausto Wolff pelo jornal. “Fausto tinha 15% das ações de O Pasquim. Ele se empenhou diante da diretoria no sentido de que ações fossem dadas também aos anônimos que lá trabalhavam, desde o próprio secretário de redação, ao office-boy, passando pela faxineira e copeira. Como os diretores não estavam a favor da proposta, Fausto decidiu dividir os seus 15% entre todos os anônimos que trabalhavam no jornal”, lembra Ricky. “No final das contas ninguém teve lucro, o jornal acabou nos anos 80, mas o Fausto deu prova concreta de sua generosidade”.

Autor de mais de 20 livros, entre os quais O Ogre e o Passarinho, da série Sinal Aberto, Olympia, premiado em concurso promovido pela Brasil Telecom, A Milésima Segunda Noite, e o Prêmio Jabuti com o romance À mão esquerda.

Irreverente e de humor refinado, Fausto Wolff muitas vezes surpreendia, como aconteceu numa festa de fim de ano promovida pela Associação dos Correspondentes da Imprensa Estrangeira do Rio de Janeiro (ACIE), quando ele foi um dos indicados para personalidade do jornalismo em 2006. Fausto pegou o microfone e cantou integralmente a letra da Internacional.

Junto ao caixão de Fausto Wolff podiam ser vistas uma camisa da Banda de Ipanema, onde ele chegou a ser um dos padrinhos, uma bandeira do Partido Comunista Brasileiro (PCB) e do PDT, partido pelo qual Fausto Wolff concorreu duas vezes a deputado federal.

Analíticos e Continentais, um comentário

Comentário à introdução ao livro Analíticos e continentais, de Franca D’Agostini
- Suas similaridades e divergências –

Texto de apoio: Verdade e Método de Hanz Georg Gadamer


“Não existe esse ser humano em estado neutro que de repente faz uma proposição assertória predicativa. Não existiu um dia esse ser humano que pela primeira vez pronunciou uma frase correta do ponto de vista lingüístico, gramatical. O ser humano, desde sempre, falou dentro de uma história determinada”.
Ernildo Stein


Duas escolas filosóficas dividem a atenção dos filósofos desde o início do século passado, a saber, analíticos e continentais.

A primeira se prende a uma interpretação do mundo estético e histórico com base no método científico, nas ciências da natureza e pressupõe uma neutralidade por parte do indivíduo que perscruta, que pesquisa, sem identificar-se com o fato ou objeto pesquisado.

A Segunda advoga uma metodologia própria para as ciências do espírito, partindo de um princípio que o indivíduo é histórico e sem os conceitos adquiridos ou os preconceitos, não poderia ele sequer falar em distanciamento para buscar a neutralidade, pois que não teria, sem esses conceitos adquiridos, do que distanciar-se.

Os analíticos supõem que, como pensava Shleiermacher, chegaremos a uma compreensão do mundo usando a hermenêutica como um método científico, o qual nos permite fazer uma descrição do fato histórico e estético alienando-nos do que está sendo estudado, descrito, pesquisado. Com isso, nossa probabilidade de chegar à verdade se compara ao da certeza das ciências naturais ao fim de um experimento, de uma pesquisa. Para Schleiermacher, a hermenêutica é a arte de evitar mal-entendidos e, sendo assim, ao aplicá-la como método, o filósofo não teria dúvidas quanto ao resultado de sua análise.

Já os continentais, seguindo o caminho traçado por Dilthey, pioneiro na tradição continental, discordam radicalmente dos analíticos e defendem uma metodologia para as ciências do espírito ou ciências humanas diferentemente do empregado pelas ciências da natureza. A hermenêutica, para eles, cujo expoente maior parece ser Heidegger, não pode se ater, apenas, ao explicar, ao traduzir, como uma exegese. É necessária uma hermenêutica que não seja reducionista, que não se atenha à linguagem enquanto instrumento de informação, de manipulação. A certeza das ciências naturais não é conhecimento e a hermenêutica que se faz necessária é a que gera conhecimento de mundo e não explicação do que está no mundo, como se a coisa analisada o fosse apenas como objeto à disposição de um cientista que, distanciado, neutro, chegaria à sua certeza a partir de suas experiências e daria seu veredito, diria sua verdade, que deveria ser aceita universalmente.

Ademais, “é impossível - segundo D’Agostini - fixar a universalidade de uma forma, um método ou uma figura, se nos encontramos em frente a uma pluralidade incalculável de fenômenos”. O universal, então, seria uma pretensão. Também para Dilthey, o método das ciências da natureza, ou lógico-analítica, mesmo aplicado às ciências do espírito, ou histórico-hermenêutica não dá conta da totalidade da vida. Aliás, segundo ele, a filosofia “é ‘filosofia das filosofias’, um saber crítico e reflexivo, investigação crítica sobre o esforço cognoscitivo que cada época desenvolve. Não é doutrina, mas indagação sobre as diversas doutrinas em particular; não formula soluções, mas elabora, confronta, avalia as soluções particulares que historicamente se apresentam para a humanidade”. (D’Agostini p.49)

Sendo ciência histórica, a filosofia não pode ser concebida como saber total, universal, válido para todos os homens em todos os tempos. Todavia, ela não pode ser reduzida à objetividade das ciências da natureza. Com efeito, para as ciências da natureza o objeto não tem implicações subjetivas, “pois nos é oferecido como um dado”. Há que haver rigor também nas ciências do espírito, mas a operação é distinta, pois fazemos parte do mundo sobre o qual nos pronunciamos e o objetivo não pode ser causal, nem a produção de leis, mas sim a compreensão do mundo pelo homem que sabe-se um ser histórico, fruto de sua cultura, de seus preconceitos.

Para Gadamer, “são nossos preconceitos que perfazem o nosso ser. (...) Pode-se mostrar que, originalmente, o conceito de preconceito ultrapassa o sentido que lhe damos à primeira vista. Os preconceitos não são necessariamente injustificados e errôneos, de modo a distorcer a verdade”. Com isso ele quer dizer que temos uma consciência histórica e estética porque nos encontramos “dentro de um espaço de ressonância estética e histórica de nossa existência sensitivo-espiritual, mantido pelas vozes que nos alcançam constantemente”. Segundo Gadamer nossa expectativa e disposição para ouvir o novo são trazidas, necessariamente pelo antigo. Os preconceitos são assim, condição prévia para que possamos experimentar qualquer coisa, “para que aquilo que nos vem ao encontro possa nos dizer algo”. Não quer ele dizer com isso que estejamos cercados por um mundo de preconceitos, mas, ao contrário, por termos já um conhecimento é que somos capazes de estranhar o novo. Caso não tivéssemos esse conhecimento anterior, não estranharíamos o novo, pois este não o seria. Seria apenas algo sem significado o que, por certo, não despertaria nosso interesse. Contra o uso da hermenêutica para evitar mal-entendidos, como queria Schleiermacher, Gadamer diz:

“É sempre um mundo já interpretado, um mundo já ordenado em suas relações, no qual a experiência entra como um elemento novo, que destrona o que guiava nossas expectativas, colocando uma nova ordem ao que é destronado. O primeiro elemento não é o mal-entendido e nem a estranheza, de modo que a tarefa primordial e inequívoca seria evitar o mal-entendido. Ao contrário, o assentamento no que é familiar e no acordo possibilita o trânsito para o estranho, a assunção do que vem deste, e com isso a ampliação e enriquecimento de nossa própria experiência de mundo. É assim que se deve compreender a pretensão de universalidade própria da dimensão hermenêutica”. (Gadamer, p.268)

Assim, não podemos, para conhecer, suspender todos os juízos e adotarmos uma postura de neutralidade, como quer a ciência, para que alcancemos a verdade. Segundo ele, “a experiência hermenêutica não consiste em algo que esteja fora e cioso para entrar. Ao contrário, somos tomados por algo e, em virtude disso que nos toma, sentimo-nos abertos para o novo, o outro, o verdadeiro”. Sugere que perguntemos como legitimar o condicionamento hermenêutico de nosso ser frente à existência da ciência moderna, “uma vez que esta se baseia totalmente no princípio da imparcialidade e na ausência de preconceitos”. Gadamer faz uma crítica ao mesmo tempo violenta e irônica da ciência. Mas diz que,

“quando tivermos presente não somente a tradição artística e a tradição histórica dos povos, não apenas o princípio da ciência moderna em suas precondições hermenêuticas, mas o todo de nossa vida de experiência, então creio que conseguiremos integrar de novo também a experiência da ciência em nossa própria experiência universal e humana de vida”. (Idem, p.265)

O abismo entre analíticos e continentais, não obstante, tem quatro elos que ligam as duas correntes: a) a linguagem, que é universal e, como tal, liga todos os seres humanos. As duas esferas que permeiam o pensamento contemporâneo, por mais dicotômicas, têm, na linguagem, o motivo de ser, não obstante para os analíticos a linguagem seja um instrumento e, para os continentais, ela seja, como dizia Heidegger, a morada do ser; b) em comum, também, entre as duas escolas, é a tarefa de eliminar a metafísica (os analíticos a partir do Círculo de Viena e os continentais, seguidores de Heidegger (embora o discurso sobre o fim da filosofia seja anterior ao século XX); e c) por fim, tanto analíticos como continentais tratam da questão do sujeito, sendo ele sujeito da ciência e da filosofia para os analíticos ou como fio condutor filosófico do debate para os continentais.

Para D’Agostini (que prefere denominar o que entendo como elo de questões que unem as duas correntes no debate filosófico), são três os temas dominantes que perpassam as obras dos filósofos analíticos e continentais: a) a questão do sujeito; b) a questão da metafísica e c) a questão do relativismo, que “diz-nos que a pluralidade das linguagens e a historicidade das aquisições teóricas tornam inadequado o esforço filosófico de dar lugar a um saber universal, em condições de falar da totalidade dos entes de modo definitivo e exaustivo”. Segundo D’Agostini, a imagem da filosofia contemporânea nasce dessas limitações e é, pois, nessas, que podemos vê-la mais autenticamente espelhada. Elas encaminham seguramente para o “fim” de um certo paradigma filosófico fundado na tripartição sujeito-objeto-método (eu, a coisa, o meu modo de considerá-la), mas também à emergência de novas premissas teóricas, ou como tem sido dito, à “reconquista” de antigas formas de pensamento”.

O problema da filosofia contemporânea, pelo menos o que acredito estar implícito nos textos analisados, é ontológico. Não mais como na tradição, todavia. Porém, como reconheceu Gadamer, vivemos na era da técnica. Então, como restituir as ordenações de nosso ser? A tarefa da filosofia é reconduzir o nosso mundo “às ordenações fundamentais de nosso ser”, pois o mundo está à disposição e arbítrio da ciência.

Com efeito, nossa história de vida e nosso destino estão à mercê da “autoridade intocável e anônima representada pela voz da ciência”, diz ainda Gadamer, ressaltando o papel da linguagem que hoje está ordenada, vulgarizada e imposta pela ciência, mas que havemos de retomá-la, pois “a linguagem constitui-se no modo fundamental de realização de nosso ser-no-mundo, a forma de constituição de mundo que tudo envolve”. O lugar da linguagem, portanto, é na estrutura fundamental de nosso ser e não na ciência, que é arbitrária.

Gadamer, reconhecendo que o nivelamento da linguagem pela ciência é algo difícil de ser detido, propõe, como tarefa comum dos homens, a criação de uma linguagem autêntica. Para ele, temos que criar uma linguagem que tenha algo a dizer. Esta seria a tarefa da filosofia nesses novos tempos.

domingo, 31 de agosto de 2008

O temor da angústia

“Por fecharem os olhos e dormirem, por consentirem em ser enganados pelas aparências, os homens em toda parte estabelecem e confirmam suas vidas diárias de rotina e hábito em cima de fundações puramente ilusórias. Crianças que brincam de viver, discernem com mais clareza que os adultos a verdadeira lei da vida e suas relações, enquanto estes fracassam sem conseguir vivê-la condignamente, embora pensem que a experiência, isto é, o fracasso os tornou mais sábios”. (H.Thoreau: Walden ou a vida nos bosques, p.94-99).


Com efeito, nos tempos modernos atuais o ser humano procura fugir de si próprio, temendo a angústia, gastando o tempo para não vivê-lo, pois vivê-lo implica em viver o instante e não apenas o passado, fazendo projeções para o futuro. Viver o instante é olhar-se no espelho e conseguir enxergar-se. Não a fantasia que faz sobre si mesmo, mas sim, ver-se num tempo presente e constatar que fugir do tempo, gastando-o para não vivê-lo, é causar a si próprio um mal-estar, é ser um outro, criado como imagem ideal de si, o que faz com todos sejam atores, com suas personas. Tirá-las é cair na real, é sentir o tempo e sua insignificância ante um tempo cósmico. É sentir-se um grão de areia no universo. É sentir-se um nada, o que levaria a angústia. Tirar essa máscara é arriscar-se a constatar que a vida que se vive não tem sentido. É “confirmar suas vidas diárias de rotina e hábito em cima de fundações puramente ilusórias”, segundo Thoreau.


Somos desde sempre (enquanto existência) formados ou pré-figurados e vivemos nesta pertença, configurando nossas visões de mundo com base na tradição, na pré-figuração. Mas diante da brevidade da vida ante a imensidão do tempo cósmico, com a certeza de que a morte é inevitável, criamos uma linguagem que traduz nossas lamentações. Lamentações justamente porque vivemos do passado sonhando com um futuro como se fôssemos imortais, o que gera um paradoxo, pois temos a morte como certa. Evitamos discuti-la, pensá-la, como se a morte fosse algo separado da nossa existência e que, como muito bem interpretou Ingmar Bergman em O sétimo selo (quando uma personagem, na tentativa de fugir da morte iminente joga xadrez com ela e ilude-se acreditando que a vencerá, por ser um exímio jogador), podemos fugir dela. Evitamos pensar e agir criticamente, re-figurando nossa vida. Até porque re-figurar necessita de mediação que só ocorre via cultura e, para tanto, faz-se necessário um outro ou algo que esteja de certa maneira ligado aos extremos. Necessitamos de ampliar nossa gramática para, através da assimilação e compreensão dos símbolos da cultura, aumentar nossa capacidade de compreensão, que só poderá se realizar via linguagem.


Re-figurar a existência é provocar uma dissonância na nossa gramática do tempo, uma dissonância na nossa configuração. É romper com o relato histórico organizado cronologicamente. É criar uma nova trama, um enredo que rompa com as barreiras criadas com a configuração, é criar uma nova gramática, ampliando o mundo, o que propiciará novas interpretações do passado e novas perspectivas de futuro. É proporcionar condições a nós próprios de rompermos com verdades estabelecidas, calcificadas. Contudo a re-figuração é também potencializadora da dor, da angústia, como alguém que, de repente, “cai em si” e, sentindo o peso da existência, prostra-se, porque, naquele instante, sente que nada fez sentido, que estava vivendo num mundo de ilusões. Cair em si significa olhar a si mesmo sem máscaras. Significa abrir-se para novas alternativas, extasiando-se com a luz; ou, então, aterrorizado com as possibilidades de novas visões de mundo, sentindo-se como que lançado no desconhecido, o homem retorna à caverna e refugia-se novamente no mundo das sombras.


Para compreender o paradoxo do tempo, entre a brevidade da vida e o tempo cósmico:

Paul Ricoeur nos diz, com propriedade, que o tempo humano é sempre um tempo relatado. Com efeito, só uma consciência pode falar de tempo. É na linguagem que a experiência cultural do tempo adquire forma definitiva. No entanto, o ser humano não resolve a questão do tempo quando o relata, de acordo com sua cultura – sim, porque o tempo não é relatado ou “medido” igualmente por todas as culturas; ao contrário, há uma diversidade de relatos que revelam as discrepâncias sobre a “passagem do tempo”. Paul Ricoeur trata da discordância entre duas perspectivas: a) tempo humano, cronometrado e vivido e b) tempo cósmico, imenso, eterno. E o principal significado dessa discordância residiria, segundo ele, no aspecto qualitativo. E este estaria relacionado à “experiência cultural do tempo”. Vejamos o que o autor quis dizer com isso:


Em relação ao tempo cósmico, anterior ao ser humano ou à consciência, não se pode falar de passado, presente e futuro. Muito menos num “agora”, pois o “agora” só existe se vivido por uma consciência. Esse tempo vivido é o único que faz sentido para o ser humano que, não obstante, sente a angústia do paradoxo: a brevidade da vida na imensidade do tempo cósmico, sem fim, eterno. Como não lhe é dada a faculdade do esquecimento, o que, se possível, o libertaria do passado, o ser humano vive de lamentações, ou seja, de relatos do passado, geralmente presos a heranças estagnadas, esclerosadas ou mortas, que fazem da experiência vivida um tempo histórico pobre, medíocre, insignificante. Para dar significação à existência, ao tempo vivido (qualitativo), deveremos buscar as mediações simbólicas proporcionadas pela cultura e enraizar na força do presente, que Ricoeur chama “vigiläncia”, o “ainda” do passado recente e o “já” do futuro iminente.

Assim, sem refutar as lamentações, as quais o poeta transforma em arte, o ser humano pode, pela “experiência da iniciativa e da vigilância, que constituem a força do presente” compensar a lamentação. Ao relatar os acontecimentos (ausentes) estamos na esfera da história coletivamente vivida e cuja narrativa nos afeta na nossa singularidade. A nós resta compreendermos as configurações e tornarmos o nosso presente em força de iniciativa e refigurarmos a nossa existência urdindo uma nova trama para o nosso tempo-calendário, deixando-nos ser mordidos pelo tempo e dando sentido às nossas vidas ou, por outro lado, aceitarmos passivamente as configurações e não qualificarmos o nosso tempo, deixando-nos salvos das mordidas do tempo e presos à nostalgia do passado e aos projetos futuros.