sexta-feira, 23 de março de 2012
sábado, 4 de abril de 2009
Os anos de chumbo (por conta do 1º de abril)
Os anos de chumbo
(texto do professor Avelino Ferreira para aula)
O golpe militar no Brasil, em 1º de abril de 1964, havia sido preparado anos antes. Documentos liberados pelos americanos 30 anos depois daquela data revelaram as manobras da Central de Inteligência Americana, a famosa CIA, para desestabilizar o Governo de João Goulart e criar as condições para o golpe e a tomada do poder. Centenas de jornalistas, escritores e sociólogos foram contratados para desencadearem uma campanha de desestabilização do Governo e muitos políticos receberam apoio para, eleitos, defenderem os interesses americanos. Para apoiar o golpe, caso houvesse resistência por parte da população e/ou Governo, os americanos prepararam os mariners (soldados bem armados que, afinal, não foram usados justamente pela não reação das forças democráticas aos golpistas).
Os próprios americanos, 30 anos depois, escreveram muitos livros, baseados em documentos, sobre as manobras patrocinadas por eles para desestabilizarem João Goulart. Historiadores brasileiros e jornalistas também tiveram acesso a essa documentação e escreveram muitos livros sobre o golpe e suas conseqüências. A própria TV Globo, que nasceu apoiada pelos americanos e pelos militares brasileiros que desejavam derrubar a TV Tupi, considerada nacionalista, passou a denominar de Golpe de Estado o movimento militar de 1964, que até o início da década de 1990 era, para ela, uma Revolução, como se o povo é que tivesse derrubado o Governo.
Os americanos precisavam dominar o Brasil
O que os americanos (com industriais, latifundiários, banqueiros e empresários brasileiros aos quais se aliaram) desejavam era o controle do maior país da América Latina. Para isso, precisavam evitar as reformas de base (reforma agrária, reforma na educação etc.) Na verdade, eles tentaram controlar o Brasil desde o segundo Governo Vargas (1951/1954). Vargas suicidou-se. Tentaram desestabilizar Juscelino Kubitscheck e quase conseguiram. Forçaram a renúncia de Jânio Quadros seis meses após ele ter assumido a Presidência da República, em 1961. Naquele momento, impediram a posse do vice, João Goulart que só assumiu porque Leonel Brizola, com apoio do III Exército (sediado no Sul), resistiu e pegou em armas para defender a Constituição. Mas Goulart, para assumir, teve que aceitar uma Emenda Constitucional que criava o Parlamentarismo, regime pelo qual o presidente é figura decorativa. Chefe de Estado, mas não Chefe de Governo. No Parlamentarismo quem governa é o Congresso, através de um Primeiro Ministro indicado pelos deputados.
Com a campanha liderada pelo Brizola (que veio para o Rio de Janeiro, se elegeu deputado e percorreu o país unindo o povo em torno da proposta de um plebiscito no qual a Nação diria SIM ou NÃO ao Parlamentarismo) o povo foi às ruas e votou contra a Emenda Parlamentarista. Goulart reassume a chefia do governo com plenos poderes. Mas ao anunciar as reformas (até hoje necessárias, exigidas e não concretizadas) os militares desfecharam o golpe, apoiados pelo governador de Minas Magalhães Pinto e o governador do então Estado da Guanabara, Carlos Lacerda. Os americanos estavam por trás de todas as articulações. Temiam que o Brasil fosse independente e se tornasse socialista, como Cuba, 05 anos antes.
A ditadura persegue, prende, tortura e mata
Após o golpe no dia 1º de abril de 1964, é editado o Ato Institucional nº 1, no dia 09, pelo qual o governo, que intitulou-se “revolucionário”, punia uma série de pessoas consideradas “inimigas do novo regime”. O marechal Humberto de Alencar Castelo Branco assume no dia 11. Os militares queriam mostrar que o novo regime era democrático e elegeram, por via indireta, o marechal. Em novembro, é editada a lei que proibia atividades políticas por parte das organizações estudantis. Em 27 de outubro de 1965, é editado o Ato Institucional nº 2, cassando muita gente. Vieram outros atos institucionais e dezenas de atos complementares, sempre restringindo as liberdades ao povo e aumentando o poder dos militares. O Governo tinha minoria no Congresso e não gozava de simpatia por parte da população. Daí, cassava deputados, prefeitos, governadores. Os Partidos políticos são dissolvidos e criados ARENA e MDB.
Em outubro de 1966, por via indireta (só os parlamentares votavam), é eleito para presidir a República o general Artur da Costa e Silva, que assume a 15 de março de 1967. Em 1968 Costa e Silva adoece. No fim daquele ano assume o Governo uma junta militar que edita o AI-5. Depois, elege, indiretamente, o general Emílio Garrastazu Médici, que governa o país com mão-de-ferro até 1974. Médici endurece o regime. Com o AI-5, tinha plenos poderes, como um Rei. Até a Justiça ficava sob seu comando. A reação então não veio do povo, que temia as mortes, torturas e prisões que vinham ocorrendo. Veio de pequenos grupos que, sem opção, pegaram em armas para combater o regime. Foi o período mais violento da ditadura. Em seguida veio Ernesto Geisel (1974/1979) e, finalmente João Baptista de Oliveira Figueiredo (1979/1984).
O período da ditadura militar, ainda desconhecido pela maioria do nosso povo, foi o período da americanização do Brasil. Chegamos ao ponto de termos uma lei para garantir que a música brasileira tocasse nas rádios. O gosto pelo que era americano foi-nos imposto de tal maneira que, para fazer sucesso, muitos artistas cantavam em inglês com nomes ingleses. O cinema foi dominado pelos americanos. Nas escolas, o ensino de Francês foi substituído pelo inglês, obrigatório. Até à nova LDB isso era uma realidade. De 1996 para cá, o Espanhol também passou a ter vez no ensino. A educação e a saúde foram sucateadas para que os empresários pudessem entrar no setor. A escola particular e os hospitais particulares proliferaram, inclusive recebendo verbas do Governo. Fizeram do público algo privado e a corrupção era acobertada, com a imprensa censurada.
Artistas sofrem com a censura
Cantores como Chico Buarque, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Gal Costa, Maria Bethânia, Geraldo Vandré, Taiguara e outros tiveram que deixar o país. Vandré, por ter sido acusado de só falar em povo, pobreza etc. e nunca falar de beleza, de flores etc. compôs a música Caminhando, a qual deu o nome de Pra não dizer que não falei das flores. Foi premiado no Festival Internacional da Canção de 1968, quando ficou em segundo lugar, e a música virou hino nacional rapidamente. Os militares proibiram a música, prenderam e torturaram Vandré e o expulsaram do país. Ele só voltou após a ditadura e não fala sobre sua obra. Não dá entrevista. Chico Buarque adotou o nome de Julinho de Adelaide para poder evitar a censura e gravou um disco com esse nome. Caetano, no exílio, recebe uma homenagem de Roberto Carlos, que compõe Debaixo dos caracóis de seus cabelos, referindo-se a ele e à saudade de sua terra, à qual um dia retornaria, segundo Roberto. De fato, voltou dois anos depois cantando “Leãozinho”. Foi uma decepção mas... é coisa de artista.
No teatro, quase todas as peças eram censuradas e proibidas. O dramaturgo campista Winston Churchill teve quatro peças proibidas e só liberadas na década de 1980, assim como Plínio Marcos, dramaturgo paulista. As pessoas, entre 1968 e 1979, ano da anistia, viviam com medo. Os jornais e TVs eram censuradas, reuniões eram proibidas, os sindicatos sob censura e vigilância. Em Campos, como de resto em quase todo o país, as famílias de nada sabiam. Não se podia pronunciar as palavras operário e proletário. Comunista era um palavrão, um xingamento. A sociedade se omitiu e só reagiu quando tudo estava consumado. Aí, já era tarde. Os ricos ficaram muito mais ricos. Hoje, muitos choram seus mortos. Reclamam da saúde e educação ruins, mas contribuíram para que assim fosse. Só tiveram “coragem” com a anistia, quando os movimentos passaram a ser permitidos pelos militares.
Prisões em Campos
Em Campos, no dia 11 de abril de 1964, morreu o prefeito Barcelos Martins. Ele estava no Rio quando sua casa foi invadida pela polícia. Soube da notícia e teve um infarto. Irineu Marins, Olavo Marins, Almirante Costa, Tarcísio Tupinambá, Delso Gomes, Jacy Barbeto e tantos outros intelectuais, políticos e líderes sindicais foram presos. Delso ficou preso sete meses. Hoje ele preside a Associação dos Aposentados e Pensionistas e lançou um livro contando parte dessa história. Muitos outros fugiram. Em 1969, o médico César Ronald, após ser preso, foge para o Uruguai. Seu irmão, Avelino Leôncio, é preso, torturado e, para não morrer, foge e se exila em Portugal. Em 1972, mais prisões de lideranças populares e sindicais, entre as quais, Fernando Machado, que sofreria os horrores de Água Santa por sete meses.
O que os americanos desejavam, conseguiram: um povo subjugado, alienado e dócil. Os capitalistas a eles ligados, conseguiram o que queriam: enriqueceram, evitaram as reformas e mandam no país até hoje. Com as novas tecnologias, já não precisam de armas. Um exemplo é o atual Governo. Controlado pelos capitalistas, Lula faz o jogo dessas elites. E, usando a Justiça e os favores de parte a parte, impede que Garotinho se candidate, pois Garotinho se constitui num perigo para o “statu quo”. Como fizeram com o Brizola em 1984, ao impedirem eleições diretas. Agora, reeleito, Lula diz que quando era jovem, era da esquerda (ou seja, a favor dos trabalhadores), mas amadureceu e, agora, é da direita, do lado dos empresários e tentando conciliar capital e trabalho. Vergonhoso.
Cuba, único país a resistir
Sem forças para reagir no diálogo, até porque as elites dialogam mas nada fazem para mudar a realidade, parcela do povo reage com a força. Por isso o surgimento do MST, no Paraná, com apoio da Igreja católica, em 1984 e, agora, o MLST. No caso dos miseráveis incrustados nas favelas dos grandes centros, eles reagem à força, mas em causas particulares e não públicas, o que se constitui num perigo para toda a população, pois agem com violência contra o próprio povo. Os militares, enfim, evitaram as reformas que o país precisa e que parte do mundo fez há muito tempo. Depois do golpe no Brasil, os americanos patrocinaram golpes militares na Argentina, Uruguai, Paraguai e Chile. Dominaram a América Latina que é o quintal deles. O único país a resistir aos seus ataques foi Cuba, mas há quase 50 anos o povo cubano sofre um bloqueio econômico de tal ordem que não consegue progredir, embora tenha a melhor educação e a melhor saúde das Américas e o melhor esporte da América Latina. Afora o fato, confessado pela CIA, de que os americanos patrocinaram mais de 300 tentativas para matar Fidel.
Registre-se que, a partir da anistia em 1979, e o retorno de muitos exilados, muitas foram as reações ao regime, que respondeu com prisões, perseguições, torturas e assassinatos. Mas, com a economia indo de mal a pior, os militares foram cedendo espaço. No entanto, sem perder o controle. Tanto que as eleições diretas não ocorreram em 1984, pois temia-se que Leonel Brizola fosse eleito. A eleição presidencial foi indireta e Tancredo ganhou de Maluf. Morreu Tancredo e assumiu Sarney, que foi um desastre. Não podemos nos esquecer da bomba que explodiu no colo de um militar que iria jogá-la no Riocentro, durante um show musical em comemoração ao Dia do Trabalhador, no Riocentro, em 1981. Culpariam os comunistas. Milhares de pessoas morreriam, pois os portões foram fechados. Ataques terroristas vitimaram pessoas na OAB e na Câmara de Vereadores do Rio. Todos os nossos passos aqui em Campos, de 1979 a 1984 foram vigiados pelos órgãos de repressão.
Músicas denunciam o regime
Uma das músicas de Chico denunciando a ditadura:
Acorda amor, eu tive um pesadelo agora
Sonhei que tinha gente lá fora
Batendo no portão, que aflição.
Era a dura, numa muito escura viatura,
Minha nossa santa criatura
Chame, chame, chame, chame o ladrão.
Acorda amor, não é mais pesadelo nada
Tem gente já no vão da escada
Fazendo confusão, que aflição
São os “home”, e eu aqui parado de pijama
Eu não gosto de passar vexame
Chame, chame, chame, chame o ladrão.
Se eu demorar uns meses
Convém, às vezes, você sofrer
Mas depois de um ano eu não vindo,
Ponha a roupa de domingo e pode me esquecer
Acorda, amor, que o bicho é bravo, não sossega
Se você corre, o bicho pega,
Se fica, não sei não. Atenção:
Não demora, dia desses chega a sua hora.
Não discuta à toa, não reclame,
Chame, la clame, chame, la clame, chame o ladrão, chame o ladrão.
Não esqueça a escova, o sabonete e o violão.
Muitas outras músicas de protesto contra a ditadura foram gravadas. Algumas censuradas, proibidas. Mas a que ficou até hoje como símbolo da resistência dos artistas, sem dúvida, foi a música de Geraldo Vandré, proibida de 1969 a 1980:
Pra não dizer que não falei das flores (Caminhando):
Caminhando e cantando e seguindo a canção
Somos todos iguais, braços dados ou não
Nas escolas, nas ruas, campos, construções
Caminhando e cantando e seguindo a canção
Vem, vamos embora, que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora, não espera acontecer
Vem, vamos embora, que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora, não espera acontecer.
Pelos campos há fome em grandes plantações
Pelas ruas, marchando, indecisos cordões
Ainda fazem da flor seu mais forte refrão
E acreditam nas flores vencendo canhão
Há soldados armados, amados ou não
Quase todos perdidos de armas na mão;
Nos quartéis lhes ensinam uma antiga lição
De morrer pela pátria e viver sem razão
Vem, vamos embora, que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora não espera acontecer
Vem, vamos embora, que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora não espera acontecer
Nas escolas, nas ruas, campos, construções
Somos todos soldados, armados ou não
Caminhando e cantando e seguindo a canção
Somos todos iguais braços dados ou não
Os amores na mente, as flores no chão
A certeza na frente, a história na mão
Caminhando e cantando e seguindo a canção
Aprendendo e ensinando uma nova lição
Vem, vamos embora, que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora não espera acontecer
Vem, vamos embora, que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora não espera acontecer.
Enfim, os americanos venceram: somos um povo submisso
O Brasil passa a significar, para os irônicos: "bravos rapazes americanos silenciosamente irão levando". Os militares encobriam a corrupção com a censura. Quando o economista Roberto Campos faliu um banco do qual era sócio, o Governo cobriu tudo e o nomeou embaixador em Londres. Outro economista, Delfim Netto, como ministro da Fazenda, causou um estrago na economia fraudando os dados da inflação e foi nomeado embaixador em Paris. Voltaram anos depois como se nada tivesse acontecido. Roberto Campos se elegeu senador pelo Rio e Delfim Netto, deputado federal por São Paulo. Antes, no Governo Figueiredo, Delfim foi nomeado ministro da Agricultura e, depois, ministro do Planejamento. Os atos de corrupção do pessoal ligado ao Governo eram proibidos de ser publicados, assim como eram proibidas as matérias que tivessem as palavras operário, proletário, ditadura, Golpe de Estado e matérias que tivessem alguma coisa a ver com os direitos humanos.
Aqui em Campos, Alair Ferreira, que era contador prático e membro da Associação Comercial e Industrial, conseguiu se eleger deputado com as cassações dos deputados contrários à ditadura. Ele era suplente de deputado e assumiu a vaga de um dos cassados. Associou-se ao ministro Mário Andreazza e sua firma fez obras no Brasil inteiro. Ficou milionário e se elegeu várias vezes. Quando o regime militar acabou, seus votos minguaram. Ele morreu logo depois. Outros que ganharam muito dinheiro com os governos militares foram os usineiros. Pegaram milhões de dólares que nunca pagaram. Quando acabou o regime militar, faliram. Todos eles. Evaldo Inojosa, dono da Usina de Outeiro, tinha avião particular. Geraldo Coutinho, dono da Usina Paraíso, em Tocos, tinha avião particular. Viviam como príncipes. Acabou o dinheiro do Governo, eles faliram. Faliram mas não foram obrigados a pagar suas dívidas e, com altos salários do IAA, com receitas de terras arrendadas, jamais conheceram dificuldades básicas.
Décadas de mudanças no comportamento
Durante o regime militar, o mundo sofreu muitas transformações, começando pelos Beatles e os Roling Stones, depois, Bob Dylan, Janis Joplin, Jimmy Hendrix e o Festival de Woodstock nos Estados Unidos em 1969. As barricadas de Paris em 1968, na França, quando os jovens foram às ruas exigir mudanças, foram um marco dessas mudanças de comportamento. Surgiram os hippies, a contestação através das roupas coloridas, do blue jeans, dos cabelos compridos, das relações sexuais livres.
No Brasil, surge o Iê, iê, iê e a Jovem Guarda com um comportamento espontâneo, livre. Raul Seixas dá o tom maluco beleza em protesto contra a farsa montada pela ditadura. Surge a Tropicália com os baianos Caetano, Gil, Bethânia e Gal e todo um modo de ser que era contrário a tudo que existia até então. A mini-saia, as mulheres usando calças compridas (o que foi considerado um absurdo), as calças pantalonas, os cabelos compridos, os barbudos, as bolsas tira-colo e as mochilas. Foi uma verdadeira revolução no comportamento que os militares nada puderam fazer, embora tratassem os jovens como rebeldes e com desprezo. Esse movimento nada tinha a ver com os militares, mas ocorreu durante o regime militar e foi tido como contestação à ditadura.
Gerações dóceis
Os males que a ditadura militar causou ao Brasil e aos brasileiros ainda vão continuar prejudicando o povo por muitos anos. A geração que nasceu em meados dos anos de 1960 até os anos 1990, é uma geração que detesta política, acredita que todos os políticos são iguais e aprendeu que o honesto é um idiota, pois o bom é levar vantagem em tudo, como disse o Gerson, jogador da seleção brasileira de 1970, ao fazer uma propaganda de cigarro naquela época.
Essa geração que tem hoje entre 33 e 43 anos, assimilou o individualismo americano e não é solidária. Quer se dar bem na vida e tem um lema: Cada um por si e Deus por todos. Essa geração tem filhos e ensinam seus filhos a cuidarem de suas próprias vidas, sem se importarem com os outros. Assim, vivem numa grande competição e querem cada vez consumir mais. É uma geração sem causa, que nada cria e só reclama. Seus filhos, hoje com idades entre 12 e 20 anos, em média, nunca têm os pais, que só pensam em trabalho e compensam a falta da presença deles em casa com bens de consumo. A geração que se forma também é uma geração sem causa. A vida não tem sentido ou, se tem, o sentido está no consumo, no ter e não no ser. Igualzinho os jovens americanos, tão bem retratados nos filmes Beleza Americana e Kids.
Ao estudar o período do regime militar, os poucos jovens que ainda pensam começam a entender uma série de coisas que deviam saber há muito tempo. Seus pais nunca tiveram interesse, nem os professores, até agora, disseram alguma coisa importante sobre a época. Até as músicas os jovens não entendem, porque não sabem da importância do que ocorreu entre 1964 e 1984.
Um exemplo é Chico Buarque quando ele canta a música Acorda amor, que diz “acorda amor, eu tive um pesadelo agora, sonhei que tinha gente lá fora, batendo no portão, que aflição”, referindo-se à polícia da ditadura que ia prendê-lo e ele diz “chama o ladrão, chama o ladrão”. Ou quando Elis Regina canta O bêbado e o equilibrista, quando diz “chora a nossa pátria mãe gentil, choram marias e clarisses no solo do Brasil”, referindo-se à dor dos que partiram, expulsos ou fugindo da ditadura. A própria música Caminhando, de Vandré, é cantada pelos jovens que não entendem que ela é um hino contra a ditadura, um canto à liberdade.
Enfim, o imperialismo americano conseguiu o que desejava: um povo submisso e afinado com a cultura do ter e não do ser. Gerações sem perspectiva, capazes das maiores violências e sem parâmetros morais e éticos. Um arremedo de nação que prefere entregar seu destino aos deuses, em vez de forjá-lo ele próprio. Uma lástima. Mas a esperança é a última que morre...
(texto do professor Avelino Ferreira para aula)
O golpe militar no Brasil, em 1º de abril de 1964, havia sido preparado anos antes. Documentos liberados pelos americanos 30 anos depois daquela data revelaram as manobras da Central de Inteligência Americana, a famosa CIA, para desestabilizar o Governo de João Goulart e criar as condições para o golpe e a tomada do poder. Centenas de jornalistas, escritores e sociólogos foram contratados para desencadearem uma campanha de desestabilização do Governo e muitos políticos receberam apoio para, eleitos, defenderem os interesses americanos. Para apoiar o golpe, caso houvesse resistência por parte da população e/ou Governo, os americanos prepararam os mariners (soldados bem armados que, afinal, não foram usados justamente pela não reação das forças democráticas aos golpistas).
Os próprios americanos, 30 anos depois, escreveram muitos livros, baseados em documentos, sobre as manobras patrocinadas por eles para desestabilizarem João Goulart. Historiadores brasileiros e jornalistas também tiveram acesso a essa documentação e escreveram muitos livros sobre o golpe e suas conseqüências. A própria TV Globo, que nasceu apoiada pelos americanos e pelos militares brasileiros que desejavam derrubar a TV Tupi, considerada nacionalista, passou a denominar de Golpe de Estado o movimento militar de 1964, que até o início da década de 1990 era, para ela, uma Revolução, como se o povo é que tivesse derrubado o Governo.
Os americanos precisavam dominar o Brasil
O que os americanos (com industriais, latifundiários, banqueiros e empresários brasileiros aos quais se aliaram) desejavam era o controle do maior país da América Latina. Para isso, precisavam evitar as reformas de base (reforma agrária, reforma na educação etc.) Na verdade, eles tentaram controlar o Brasil desde o segundo Governo Vargas (1951/1954). Vargas suicidou-se. Tentaram desestabilizar Juscelino Kubitscheck e quase conseguiram. Forçaram a renúncia de Jânio Quadros seis meses após ele ter assumido a Presidência da República, em 1961. Naquele momento, impediram a posse do vice, João Goulart que só assumiu porque Leonel Brizola, com apoio do III Exército (sediado no Sul), resistiu e pegou em armas para defender a Constituição. Mas Goulart, para assumir, teve que aceitar uma Emenda Constitucional que criava o Parlamentarismo, regime pelo qual o presidente é figura decorativa. Chefe de Estado, mas não Chefe de Governo. No Parlamentarismo quem governa é o Congresso, através de um Primeiro Ministro indicado pelos deputados.
Com a campanha liderada pelo Brizola (que veio para o Rio de Janeiro, se elegeu deputado e percorreu o país unindo o povo em torno da proposta de um plebiscito no qual a Nação diria SIM ou NÃO ao Parlamentarismo) o povo foi às ruas e votou contra a Emenda Parlamentarista. Goulart reassume a chefia do governo com plenos poderes. Mas ao anunciar as reformas (até hoje necessárias, exigidas e não concretizadas) os militares desfecharam o golpe, apoiados pelo governador de Minas Magalhães Pinto e o governador do então Estado da Guanabara, Carlos Lacerda. Os americanos estavam por trás de todas as articulações. Temiam que o Brasil fosse independente e se tornasse socialista, como Cuba, 05 anos antes.
A ditadura persegue, prende, tortura e mata
Após o golpe no dia 1º de abril de 1964, é editado o Ato Institucional nº 1, no dia 09, pelo qual o governo, que intitulou-se “revolucionário”, punia uma série de pessoas consideradas “inimigas do novo regime”. O marechal Humberto de Alencar Castelo Branco assume no dia 11. Os militares queriam mostrar que o novo regime era democrático e elegeram, por via indireta, o marechal. Em novembro, é editada a lei que proibia atividades políticas por parte das organizações estudantis. Em 27 de outubro de 1965, é editado o Ato Institucional nº 2, cassando muita gente. Vieram outros atos institucionais e dezenas de atos complementares, sempre restringindo as liberdades ao povo e aumentando o poder dos militares. O Governo tinha minoria no Congresso e não gozava de simpatia por parte da população. Daí, cassava deputados, prefeitos, governadores. Os Partidos políticos são dissolvidos e criados ARENA e MDB.
Em outubro de 1966, por via indireta (só os parlamentares votavam), é eleito para presidir a República o general Artur da Costa e Silva, que assume a 15 de março de 1967. Em 1968 Costa e Silva adoece. No fim daquele ano assume o Governo uma junta militar que edita o AI-5. Depois, elege, indiretamente, o general Emílio Garrastazu Médici, que governa o país com mão-de-ferro até 1974. Médici endurece o regime. Com o AI-5, tinha plenos poderes, como um Rei. Até a Justiça ficava sob seu comando. A reação então não veio do povo, que temia as mortes, torturas e prisões que vinham ocorrendo. Veio de pequenos grupos que, sem opção, pegaram em armas para combater o regime. Foi o período mais violento da ditadura. Em seguida veio Ernesto Geisel (1974/1979) e, finalmente João Baptista de Oliveira Figueiredo (1979/1984).
O período da ditadura militar, ainda desconhecido pela maioria do nosso povo, foi o período da americanização do Brasil. Chegamos ao ponto de termos uma lei para garantir que a música brasileira tocasse nas rádios. O gosto pelo que era americano foi-nos imposto de tal maneira que, para fazer sucesso, muitos artistas cantavam em inglês com nomes ingleses. O cinema foi dominado pelos americanos. Nas escolas, o ensino de Francês foi substituído pelo inglês, obrigatório. Até à nova LDB isso era uma realidade. De 1996 para cá, o Espanhol também passou a ter vez no ensino. A educação e a saúde foram sucateadas para que os empresários pudessem entrar no setor. A escola particular e os hospitais particulares proliferaram, inclusive recebendo verbas do Governo. Fizeram do público algo privado e a corrupção era acobertada, com a imprensa censurada.
Artistas sofrem com a censura
Cantores como Chico Buarque, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Gal Costa, Maria Bethânia, Geraldo Vandré, Taiguara e outros tiveram que deixar o país. Vandré, por ter sido acusado de só falar em povo, pobreza etc. e nunca falar de beleza, de flores etc. compôs a música Caminhando, a qual deu o nome de Pra não dizer que não falei das flores. Foi premiado no Festival Internacional da Canção de 1968, quando ficou em segundo lugar, e a música virou hino nacional rapidamente. Os militares proibiram a música, prenderam e torturaram Vandré e o expulsaram do país. Ele só voltou após a ditadura e não fala sobre sua obra. Não dá entrevista. Chico Buarque adotou o nome de Julinho de Adelaide para poder evitar a censura e gravou um disco com esse nome. Caetano, no exílio, recebe uma homenagem de Roberto Carlos, que compõe Debaixo dos caracóis de seus cabelos, referindo-se a ele e à saudade de sua terra, à qual um dia retornaria, segundo Roberto. De fato, voltou dois anos depois cantando “Leãozinho”. Foi uma decepção mas... é coisa de artista.
No teatro, quase todas as peças eram censuradas e proibidas. O dramaturgo campista Winston Churchill teve quatro peças proibidas e só liberadas na década de 1980, assim como Plínio Marcos, dramaturgo paulista. As pessoas, entre 1968 e 1979, ano da anistia, viviam com medo. Os jornais e TVs eram censuradas, reuniões eram proibidas, os sindicatos sob censura e vigilância. Em Campos, como de resto em quase todo o país, as famílias de nada sabiam. Não se podia pronunciar as palavras operário e proletário. Comunista era um palavrão, um xingamento. A sociedade se omitiu e só reagiu quando tudo estava consumado. Aí, já era tarde. Os ricos ficaram muito mais ricos. Hoje, muitos choram seus mortos. Reclamam da saúde e educação ruins, mas contribuíram para que assim fosse. Só tiveram “coragem” com a anistia, quando os movimentos passaram a ser permitidos pelos militares.
Prisões em Campos
Em Campos, no dia 11 de abril de 1964, morreu o prefeito Barcelos Martins. Ele estava no Rio quando sua casa foi invadida pela polícia. Soube da notícia e teve um infarto. Irineu Marins, Olavo Marins, Almirante Costa, Tarcísio Tupinambá, Delso Gomes, Jacy Barbeto e tantos outros intelectuais, políticos e líderes sindicais foram presos. Delso ficou preso sete meses. Hoje ele preside a Associação dos Aposentados e Pensionistas e lançou um livro contando parte dessa história. Muitos outros fugiram. Em 1969, o médico César Ronald, após ser preso, foge para o Uruguai. Seu irmão, Avelino Leôncio, é preso, torturado e, para não morrer, foge e se exila em Portugal. Em 1972, mais prisões de lideranças populares e sindicais, entre as quais, Fernando Machado, que sofreria os horrores de Água Santa por sete meses.
O que os americanos desejavam, conseguiram: um povo subjugado, alienado e dócil. Os capitalistas a eles ligados, conseguiram o que queriam: enriqueceram, evitaram as reformas e mandam no país até hoje. Com as novas tecnologias, já não precisam de armas. Um exemplo é o atual Governo. Controlado pelos capitalistas, Lula faz o jogo dessas elites. E, usando a Justiça e os favores de parte a parte, impede que Garotinho se candidate, pois Garotinho se constitui num perigo para o “statu quo”. Como fizeram com o Brizola em 1984, ao impedirem eleições diretas. Agora, reeleito, Lula diz que quando era jovem, era da esquerda (ou seja, a favor dos trabalhadores), mas amadureceu e, agora, é da direita, do lado dos empresários e tentando conciliar capital e trabalho. Vergonhoso.
Cuba, único país a resistir
Sem forças para reagir no diálogo, até porque as elites dialogam mas nada fazem para mudar a realidade, parcela do povo reage com a força. Por isso o surgimento do MST, no Paraná, com apoio da Igreja católica, em 1984 e, agora, o MLST. No caso dos miseráveis incrustados nas favelas dos grandes centros, eles reagem à força, mas em causas particulares e não públicas, o que se constitui num perigo para toda a população, pois agem com violência contra o próprio povo. Os militares, enfim, evitaram as reformas que o país precisa e que parte do mundo fez há muito tempo. Depois do golpe no Brasil, os americanos patrocinaram golpes militares na Argentina, Uruguai, Paraguai e Chile. Dominaram a América Latina que é o quintal deles. O único país a resistir aos seus ataques foi Cuba, mas há quase 50 anos o povo cubano sofre um bloqueio econômico de tal ordem que não consegue progredir, embora tenha a melhor educação e a melhor saúde das Américas e o melhor esporte da América Latina. Afora o fato, confessado pela CIA, de que os americanos patrocinaram mais de 300 tentativas para matar Fidel.
Registre-se que, a partir da anistia em 1979, e o retorno de muitos exilados, muitas foram as reações ao regime, que respondeu com prisões, perseguições, torturas e assassinatos. Mas, com a economia indo de mal a pior, os militares foram cedendo espaço. No entanto, sem perder o controle. Tanto que as eleições diretas não ocorreram em 1984, pois temia-se que Leonel Brizola fosse eleito. A eleição presidencial foi indireta e Tancredo ganhou de Maluf. Morreu Tancredo e assumiu Sarney, que foi um desastre. Não podemos nos esquecer da bomba que explodiu no colo de um militar que iria jogá-la no Riocentro, durante um show musical em comemoração ao Dia do Trabalhador, no Riocentro, em 1981. Culpariam os comunistas. Milhares de pessoas morreriam, pois os portões foram fechados. Ataques terroristas vitimaram pessoas na OAB e na Câmara de Vereadores do Rio. Todos os nossos passos aqui em Campos, de 1979 a 1984 foram vigiados pelos órgãos de repressão.
Músicas denunciam o regime
Uma das músicas de Chico denunciando a ditadura:
Acorda amor, eu tive um pesadelo agora
Sonhei que tinha gente lá fora
Batendo no portão, que aflição.
Era a dura, numa muito escura viatura,
Minha nossa santa criatura
Chame, chame, chame, chame o ladrão.
Acorda amor, não é mais pesadelo nada
Tem gente já no vão da escada
Fazendo confusão, que aflição
São os “home”, e eu aqui parado de pijama
Eu não gosto de passar vexame
Chame, chame, chame, chame o ladrão.
Se eu demorar uns meses
Convém, às vezes, você sofrer
Mas depois de um ano eu não vindo,
Ponha a roupa de domingo e pode me esquecer
Acorda, amor, que o bicho é bravo, não sossega
Se você corre, o bicho pega,
Se fica, não sei não. Atenção:
Não demora, dia desses chega a sua hora.
Não discuta à toa, não reclame,
Chame, la clame, chame, la clame, chame o ladrão, chame o ladrão.
Não esqueça a escova, o sabonete e o violão.
Muitas outras músicas de protesto contra a ditadura foram gravadas. Algumas censuradas, proibidas. Mas a que ficou até hoje como símbolo da resistência dos artistas, sem dúvida, foi a música de Geraldo Vandré, proibida de 1969 a 1980:
Pra não dizer que não falei das flores (Caminhando):
Caminhando e cantando e seguindo a canção
Somos todos iguais, braços dados ou não
Nas escolas, nas ruas, campos, construções
Caminhando e cantando e seguindo a canção
Vem, vamos embora, que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora, não espera acontecer
Vem, vamos embora, que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora, não espera acontecer.
Pelos campos há fome em grandes plantações
Pelas ruas, marchando, indecisos cordões
Ainda fazem da flor seu mais forte refrão
E acreditam nas flores vencendo canhão
Há soldados armados, amados ou não
Quase todos perdidos de armas na mão;
Nos quartéis lhes ensinam uma antiga lição
De morrer pela pátria e viver sem razão
Vem, vamos embora, que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora não espera acontecer
Vem, vamos embora, que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora não espera acontecer
Nas escolas, nas ruas, campos, construções
Somos todos soldados, armados ou não
Caminhando e cantando e seguindo a canção
Somos todos iguais braços dados ou não
Os amores na mente, as flores no chão
A certeza na frente, a história na mão
Caminhando e cantando e seguindo a canção
Aprendendo e ensinando uma nova lição
Vem, vamos embora, que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora não espera acontecer
Vem, vamos embora, que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora não espera acontecer.
Enfim, os americanos venceram: somos um povo submisso
O Brasil passa a significar, para os irônicos: "bravos rapazes americanos silenciosamente irão levando". Os militares encobriam a corrupção com a censura. Quando o economista Roberto Campos faliu um banco do qual era sócio, o Governo cobriu tudo e o nomeou embaixador em Londres. Outro economista, Delfim Netto, como ministro da Fazenda, causou um estrago na economia fraudando os dados da inflação e foi nomeado embaixador em Paris. Voltaram anos depois como se nada tivesse acontecido. Roberto Campos se elegeu senador pelo Rio e Delfim Netto, deputado federal por São Paulo. Antes, no Governo Figueiredo, Delfim foi nomeado ministro da Agricultura e, depois, ministro do Planejamento. Os atos de corrupção do pessoal ligado ao Governo eram proibidos de ser publicados, assim como eram proibidas as matérias que tivessem as palavras operário, proletário, ditadura, Golpe de Estado e matérias que tivessem alguma coisa a ver com os direitos humanos.
Aqui em Campos, Alair Ferreira, que era contador prático e membro da Associação Comercial e Industrial, conseguiu se eleger deputado com as cassações dos deputados contrários à ditadura. Ele era suplente de deputado e assumiu a vaga de um dos cassados. Associou-se ao ministro Mário Andreazza e sua firma fez obras no Brasil inteiro. Ficou milionário e se elegeu várias vezes. Quando o regime militar acabou, seus votos minguaram. Ele morreu logo depois. Outros que ganharam muito dinheiro com os governos militares foram os usineiros. Pegaram milhões de dólares que nunca pagaram. Quando acabou o regime militar, faliram. Todos eles. Evaldo Inojosa, dono da Usina de Outeiro, tinha avião particular. Geraldo Coutinho, dono da Usina Paraíso, em Tocos, tinha avião particular. Viviam como príncipes. Acabou o dinheiro do Governo, eles faliram. Faliram mas não foram obrigados a pagar suas dívidas e, com altos salários do IAA, com receitas de terras arrendadas, jamais conheceram dificuldades básicas.
Décadas de mudanças no comportamento
Durante o regime militar, o mundo sofreu muitas transformações, começando pelos Beatles e os Roling Stones, depois, Bob Dylan, Janis Joplin, Jimmy Hendrix e o Festival de Woodstock nos Estados Unidos em 1969. As barricadas de Paris em 1968, na França, quando os jovens foram às ruas exigir mudanças, foram um marco dessas mudanças de comportamento. Surgiram os hippies, a contestação através das roupas coloridas, do blue jeans, dos cabelos compridos, das relações sexuais livres.
No Brasil, surge o Iê, iê, iê e a Jovem Guarda com um comportamento espontâneo, livre. Raul Seixas dá o tom maluco beleza em protesto contra a farsa montada pela ditadura. Surge a Tropicália com os baianos Caetano, Gil, Bethânia e Gal e todo um modo de ser que era contrário a tudo que existia até então. A mini-saia, as mulheres usando calças compridas (o que foi considerado um absurdo), as calças pantalonas, os cabelos compridos, os barbudos, as bolsas tira-colo e as mochilas. Foi uma verdadeira revolução no comportamento que os militares nada puderam fazer, embora tratassem os jovens como rebeldes e com desprezo. Esse movimento nada tinha a ver com os militares, mas ocorreu durante o regime militar e foi tido como contestação à ditadura.
Gerações dóceis
Os males que a ditadura militar causou ao Brasil e aos brasileiros ainda vão continuar prejudicando o povo por muitos anos. A geração que nasceu em meados dos anos de 1960 até os anos 1990, é uma geração que detesta política, acredita que todos os políticos são iguais e aprendeu que o honesto é um idiota, pois o bom é levar vantagem em tudo, como disse o Gerson, jogador da seleção brasileira de 1970, ao fazer uma propaganda de cigarro naquela época.
Essa geração que tem hoje entre 33 e 43 anos, assimilou o individualismo americano e não é solidária. Quer se dar bem na vida e tem um lema: Cada um por si e Deus por todos. Essa geração tem filhos e ensinam seus filhos a cuidarem de suas próprias vidas, sem se importarem com os outros. Assim, vivem numa grande competição e querem cada vez consumir mais. É uma geração sem causa, que nada cria e só reclama. Seus filhos, hoje com idades entre 12 e 20 anos, em média, nunca têm os pais, que só pensam em trabalho e compensam a falta da presença deles em casa com bens de consumo. A geração que se forma também é uma geração sem causa. A vida não tem sentido ou, se tem, o sentido está no consumo, no ter e não no ser. Igualzinho os jovens americanos, tão bem retratados nos filmes Beleza Americana e Kids.
Ao estudar o período do regime militar, os poucos jovens que ainda pensam começam a entender uma série de coisas que deviam saber há muito tempo. Seus pais nunca tiveram interesse, nem os professores, até agora, disseram alguma coisa importante sobre a época. Até as músicas os jovens não entendem, porque não sabem da importância do que ocorreu entre 1964 e 1984.
Um exemplo é Chico Buarque quando ele canta a música Acorda amor, que diz “acorda amor, eu tive um pesadelo agora, sonhei que tinha gente lá fora, batendo no portão, que aflição”, referindo-se à polícia da ditadura que ia prendê-lo e ele diz “chama o ladrão, chama o ladrão”. Ou quando Elis Regina canta O bêbado e o equilibrista, quando diz “chora a nossa pátria mãe gentil, choram marias e clarisses no solo do Brasil”, referindo-se à dor dos que partiram, expulsos ou fugindo da ditadura. A própria música Caminhando, de Vandré, é cantada pelos jovens que não entendem que ela é um hino contra a ditadura, um canto à liberdade.
Enfim, o imperialismo americano conseguiu o que desejava: um povo submisso e afinado com a cultura do ter e não do ser. Gerações sem perspectiva, capazes das maiores violências e sem parâmetros morais e éticos. Um arremedo de nação que prefere entregar seu destino aos deuses, em vez de forjá-lo ele próprio. Uma lástima. Mas a esperança é a última que morre...
sábado, 21 de fevereiro de 2009
Na Tenda, o Boi Lambeu
sexta-feira, 24 de outubro de 2008
Rosinha venceu de goleada
Quando os blogs repetem frases e palavras das perguntas e respostas dos candidatos, não auxiliam em nada o leitor que, se está interessado, obviamente está vendo o debate. Além do mais, não se reproduz tudo o que os candidatos dizem. As frases ficam cortadas, sem sentido. Porém, creio que melhorarão no futuro.
O que os leitores dos blogs querem saber, além da notícia, é a análise franca, aberta, do debate. E é isso que tentamos fazer. Aliás, fizemos nos debates anteriores e neste, começamos agora.
Primeiro, como dissemos anteriormente, não houve novidades em relação a propostas. Os ataques entre os candidatos sofreram uma redução substancial. Rosinha manteve-se segura e propositiva. Arnaldo é o que poderia ser chamado de "enrolão". Tenta ironizar e se dá mal, pois não tem competência para fazer ironias sem perder o norte.
Rosinha consegue fustigar o candidato sem perder o rumo, sem deixar de fazer propostas claras sobre o assunto em pauta. Já Arnaldo nem responde nem fustiga bem. Um pessoa que foi prefeito por quase 7 anos, com a fortuna que recebeu dos royalties do petróleo, não pode ser tão ruim. Mas tem uma explicação: ele pouco fez pelo município, criou um sistema de corrupção jamais imaginado e gastou o dinheiro dos royalties com ele próprio, sua família, seus amigos e na base eleitoral que criou.
Por isso mesmo suas contas foram reprovadas, foi cassado (voltou por conta de uma liminar), está impugnado, seu mandato de deputado está sub judice, foi chamado de ladrão por Garotinho e não respondeu nem processou o ex-governador e, se perder o poder, será preso em pouco tempo, tantos são os processos contra ele. Teve também um seu pupilo cassado e o outro afastado da prefeitura (voltou por comnta de uma liminar). Ou seja, é um político sujo, imoral. Não poderia responder a questões sérias com seriedade.
Já Rosinha fala com segurança porque não tem processo contra ela. Aliás, o que ela e o marido sofrem e todos sabem é uma perseguição política também jamais vista. Só o Brizola sofreu tanto, mas não no seu estado, na sua cidade. Suas contas foram aprovadas com louvor. Foi elogiada até pela Firjan.
Arnaldo mente até quando diz que é amigo de Sérgio Cabral e de Lula. Amigo? Desde quando? Rosinha fez muitas obras importantes em Campos e Arnaldo dizque ela nada fez. Elogia Sérgio Cabral que, em dois anos de governo, não fez absolutamente nada em Campos nem em lugar algum.
Mas isso todos já sebem. Só vota em Arnaldo quem está levando vantagem financeira ou não gosta de sua cidade. Ou ainda, pensa em levar vantagem como os novos ricos de Campos. Dizer que é sério, ama a cidade e vota em Arnaldo é mentira. Pode até anular o voto, porque não gosta de Rosinha, mas votar em Arnaldo, jamais. Quem vota é porque não é cidadão, não deseja o bem de sua cidade.
Quem assistiu o debate na Record e, agora, na InterTV, constatou que Arnaldo é um incompetente, um mentiroso, um político sem rumo, sem trilhos, sem proposta. Seu filho, ao falar no último programa de TV do candidato, nem parece o mesmo Caio oportunista, malcriado, autoritário e esbanjador do dinheiro fácil que recebe dos cofres públicos. Arnaldo, ao elogiar Ilsan no debate, nem parece estar falando de uma mulher sem pudor, autoritária, perseguidora, processada por roubo do dinheiro público.
Faltou defender Chocolate, seu ex-motorista que é dono de muitos imóveis na entrada da Penha. Ri à toa ao falar com os amigos que acertou na loteria ao se tornar amigo de Arnaldo e vai viver muito bem o resto da vida, pois vai receber aluguel desses muitos imóveis. Faltou defender os Olavinho, os Gugu, os Quintanilha, os Tinhos, que nada tinham e tornaram-se proprietários de imóveis, comércio, muitos veículos, casas na praia e dinheiro no banco.
O governo de Arnaldo foi um desastre, assim como este de Mocaiber. Carlos Alberto CAmpista, cassado, tentou romper com a corrupção desenfreada, mas foi cassado por causa dela no governo de Arnaldo. Tentou romper sabendo que jamais conseguiria, pois foi eleito justamente pela corrupção.
Neste campanha Arnaldo e seus asseclas tentaram misturar no mesmo balaio Garotinho e Rosinha. Não conseguiram. Pode-se discordar de Garotinho por seu jeito de fazer política, por suas opiniões, mas jamais porque é desonesto ou roubou o dinheiro público. Ou compactuou com a corrupção. Ou não teve autoridade como governante.
Tudo isso ficou muito claro nos debates, principalmente nos dois do segundo turno. Se houvesse uma nota a ser dada ao desempenho dos dois candidatos acertaria quem dissesse que Rosinha ganhou de goleada. Mais que os cinco a zero do Flamengo sobre o Coritiba.
O que os leitores dos blogs querem saber, além da notícia, é a análise franca, aberta, do debate. E é isso que tentamos fazer. Aliás, fizemos nos debates anteriores e neste, começamos agora.
Primeiro, como dissemos anteriormente, não houve novidades em relação a propostas. Os ataques entre os candidatos sofreram uma redução substancial. Rosinha manteve-se segura e propositiva. Arnaldo é o que poderia ser chamado de "enrolão". Tenta ironizar e se dá mal, pois não tem competência para fazer ironias sem perder o norte.
Rosinha consegue fustigar o candidato sem perder o rumo, sem deixar de fazer propostas claras sobre o assunto em pauta. Já Arnaldo nem responde nem fustiga bem. Um pessoa que foi prefeito por quase 7 anos, com a fortuna que recebeu dos royalties do petróleo, não pode ser tão ruim. Mas tem uma explicação: ele pouco fez pelo município, criou um sistema de corrupção jamais imaginado e gastou o dinheiro dos royalties com ele próprio, sua família, seus amigos e na base eleitoral que criou.
Por isso mesmo suas contas foram reprovadas, foi cassado (voltou por conta de uma liminar), está impugnado, seu mandato de deputado está sub judice, foi chamado de ladrão por Garotinho e não respondeu nem processou o ex-governador e, se perder o poder, será preso em pouco tempo, tantos são os processos contra ele. Teve também um seu pupilo cassado e o outro afastado da prefeitura (voltou por comnta de uma liminar). Ou seja, é um político sujo, imoral. Não poderia responder a questões sérias com seriedade.
Já Rosinha fala com segurança porque não tem processo contra ela. Aliás, o que ela e o marido sofrem e todos sabem é uma perseguição política também jamais vista. Só o Brizola sofreu tanto, mas não no seu estado, na sua cidade. Suas contas foram aprovadas com louvor. Foi elogiada até pela Firjan.
Arnaldo mente até quando diz que é amigo de Sérgio Cabral e de Lula. Amigo? Desde quando? Rosinha fez muitas obras importantes em Campos e Arnaldo dizque ela nada fez. Elogia Sérgio Cabral que, em dois anos de governo, não fez absolutamente nada em Campos nem em lugar algum.
Mas isso todos já sebem. Só vota em Arnaldo quem está levando vantagem financeira ou não gosta de sua cidade. Ou ainda, pensa em levar vantagem como os novos ricos de Campos. Dizer que é sério, ama a cidade e vota em Arnaldo é mentira. Pode até anular o voto, porque não gosta de Rosinha, mas votar em Arnaldo, jamais. Quem vota é porque não é cidadão, não deseja o bem de sua cidade.
Quem assistiu o debate na Record e, agora, na InterTV, constatou que Arnaldo é um incompetente, um mentiroso, um político sem rumo, sem trilhos, sem proposta. Seu filho, ao falar no último programa de TV do candidato, nem parece o mesmo Caio oportunista, malcriado, autoritário e esbanjador do dinheiro fácil que recebe dos cofres públicos. Arnaldo, ao elogiar Ilsan no debate, nem parece estar falando de uma mulher sem pudor, autoritária, perseguidora, processada por roubo do dinheiro público.
Faltou defender Chocolate, seu ex-motorista que é dono de muitos imóveis na entrada da Penha. Ri à toa ao falar com os amigos que acertou na loteria ao se tornar amigo de Arnaldo e vai viver muito bem o resto da vida, pois vai receber aluguel desses muitos imóveis. Faltou defender os Olavinho, os Gugu, os Quintanilha, os Tinhos, que nada tinham e tornaram-se proprietários de imóveis, comércio, muitos veículos, casas na praia e dinheiro no banco.
O governo de Arnaldo foi um desastre, assim como este de Mocaiber. Carlos Alberto CAmpista, cassado, tentou romper com a corrupção desenfreada, mas foi cassado por causa dela no governo de Arnaldo. Tentou romper sabendo que jamais conseguiria, pois foi eleito justamente pela corrupção.
Neste campanha Arnaldo e seus asseclas tentaram misturar no mesmo balaio Garotinho e Rosinha. Não conseguiram. Pode-se discordar de Garotinho por seu jeito de fazer política, por suas opiniões, mas jamais porque é desonesto ou roubou o dinheiro público. Ou compactuou com a corrupção. Ou não teve autoridade como governante.
Tudo isso ficou muito claro nos debates, principalmente nos dois do segundo turno. Se houvesse uma nota a ser dada ao desempenho dos dois candidatos acertaria quem dissesse que Rosinha ganhou de goleada. Mais que os cinco a zero do Flamengo sobre o Coritiba.
sexta-feira, 12 de setembro de 2008
Jakobskind em artigo sobre Fausto Wolff
Meu amigo Humberto Rangel enviou-me o artigo que Jakobskind escreveu sobre Fausto Wolff. Vale a pena lê-lo (aqueles que sabiam da existência daquele que considero o jornalista mais completo da imprensa brasileira). Vamos a ele:
Morre Fausto Wolff, um oásis na imprensa diária
Mário Augusto Jakobskind, do Rio de Janeiro
Ao som da Internacional, de Carinhoso e de Cidade Maravilhosa, o hino do Rio de Janeiro, executados por dois integrantes da Banda de Ipanema, os amigos se despediram do escritor e jornalista Fausto Wolff, que morreu na sexta-feira à noite vítima de disfunção múltipla dos órgãos. Seu corpo foi cremado no cemitério do Caju, no Rio de Janeiro. Aos 68 anos, Fausto era considerado um oásis na imprensa diária brasileira, com a sua coluna no Jornal do Brasil, onde por mais de dois anos conseguiu romper com a mesmice, o senso comum e o pensamento único.
Não poucas vezes, segundo o jornalista Sergio Caldieri, o Jornal do Brasil foi pressionado para demitir Fausto Wolff, sobretudo por entidades da colônia judaica, em função do seu posicionamento favorável à causa palestina. O empresário, Nelson Tanure, proprietário do Jornal do Brasil, presente ao velório, confirmou o que disse Caldieri, representamte do Comitê Palestina-Viva Intifada.
Irreverente e defensor incondicional do ideário socialista, Fausto começou cedo no jornalismo. Aos 14 anos, em Porto Alegre, já circulava nas redações de jornais e em pouquíssimo tempo tornou-se repórter policial, dos mais brilhantes, por sinal, segundo testemunhas da época.
De família pobre, Faustin Von Wolffenbüttel, - o verdadeiro nome de Fausto - filho de imigrante alemão, deixou Santo Ângelo, cidade onde nasceu, indo trabalhar na capital gaúcha. A sua opção pelo socialismo, segundo o próprio Fausto, ocorreu já naquela época, quando constatou na própria pele como os pobres eram discriminados pela elite bem nascida.
Aos 18 anos foi para o Rio de Janeiro passando a trabalhar em vários jornais e canais de televisão. Depois do golpe de 64 circulou pela Europa, onde tornou-se professor de literatura brasileira, em Nápoles, na Itália, e em Copenahgue, capital da Dinamarca.
Fausto esteve em Saigon, então capital do Vietnã do Sul, cobrindo a guerra do Vietnã para uma agência de notícias. Em depoimento no Youtube, Fausto com toda a irreverência que lhe caracterizava, assinala que circulava pela noite de Saigon com uma plaqueta que o identificava como jornalista brasileiro, para que “não pairasse nenhuma dúvida”.
Ao retornar ao Brasil participou ativamente em O Pasquim, tornando-se um dos seus editores juntamente com Jaguar e Ziraldo. Ricky Gooddwin, secretário de redação da publicação recorda uma passagem pouco divulgada de Fausto Wolff pelo jornal. “Fausto tinha 15% das ações de O Pasquim. Ele se empenhou diante da diretoria no sentido de que ações fossem dadas também aos anônimos que lá trabalhavam, desde o próprio secretário de redação, ao office-boy, passando pela faxineira e copeira. Como os diretores não estavam a favor da proposta, Fausto decidiu dividir os seus 15% entre todos os anônimos que trabalhavam no jornal”, lembra Ricky. “No final das contas ninguém teve lucro, o jornal acabou nos anos 80, mas o Fausto deu prova concreta de sua generosidade”.
Autor de mais de 20 livros, entre os quais O Ogre e o Passarinho, da série Sinal Aberto, Olympia, premiado em concurso promovido pela Brasil Telecom, A Milésima Segunda Noite, e o Prêmio Jabuti com o romance À mão esquerda.
Irreverente e de humor refinado, Fausto Wolff muitas vezes surpreendia, como aconteceu numa festa de fim de ano promovida pela Associação dos Correspondentes da Imprensa Estrangeira do Rio de Janeiro (ACIE), quando ele foi um dos indicados para personalidade do jornalismo em 2006. Fausto pegou o microfone e cantou integralmente a letra da Internacional.
Junto ao caixão de Fausto Wolff podiam ser vistas uma camisa da Banda de Ipanema, onde ele chegou a ser um dos padrinhos, uma bandeira do Partido Comunista Brasileiro (PCB) e do PDT, partido pelo qual Fausto Wolff concorreu duas vezes a deputado federal.
Morre Fausto Wolff, um oásis na imprensa diária
Mário Augusto Jakobskind, do Rio de Janeiro
Ao som da Internacional, de Carinhoso e de Cidade Maravilhosa, o hino do Rio de Janeiro, executados por dois integrantes da Banda de Ipanema, os amigos se despediram do escritor e jornalista Fausto Wolff, que morreu na sexta-feira à noite vítima de disfunção múltipla dos órgãos. Seu corpo foi cremado no cemitério do Caju, no Rio de Janeiro. Aos 68 anos, Fausto era considerado um oásis na imprensa diária brasileira, com a sua coluna no Jornal do Brasil, onde por mais de dois anos conseguiu romper com a mesmice, o senso comum e o pensamento único.
Não poucas vezes, segundo o jornalista Sergio Caldieri, o Jornal do Brasil foi pressionado para demitir Fausto Wolff, sobretudo por entidades da colônia judaica, em função do seu posicionamento favorável à causa palestina. O empresário, Nelson Tanure, proprietário do Jornal do Brasil, presente ao velório, confirmou o que disse Caldieri, representamte do Comitê Palestina-Viva Intifada.
Irreverente e defensor incondicional do ideário socialista, Fausto começou cedo no jornalismo. Aos 14 anos, em Porto Alegre, já circulava nas redações de jornais e em pouquíssimo tempo tornou-se repórter policial, dos mais brilhantes, por sinal, segundo testemunhas da época.
De família pobre, Faustin Von Wolffenbüttel, - o verdadeiro nome de Fausto - filho de imigrante alemão, deixou Santo Ângelo, cidade onde nasceu, indo trabalhar na capital gaúcha. A sua opção pelo socialismo, segundo o próprio Fausto, ocorreu já naquela época, quando constatou na própria pele como os pobres eram discriminados pela elite bem nascida.
Aos 18 anos foi para o Rio de Janeiro passando a trabalhar em vários jornais e canais de televisão. Depois do golpe de 64 circulou pela Europa, onde tornou-se professor de literatura brasileira, em Nápoles, na Itália, e em Copenahgue, capital da Dinamarca.
Fausto esteve em Saigon, então capital do Vietnã do Sul, cobrindo a guerra do Vietnã para uma agência de notícias. Em depoimento no Youtube, Fausto com toda a irreverência que lhe caracterizava, assinala que circulava pela noite de Saigon com uma plaqueta que o identificava como jornalista brasileiro, para que “não pairasse nenhuma dúvida”.
Ao retornar ao Brasil participou ativamente em O Pasquim, tornando-se um dos seus editores juntamente com Jaguar e Ziraldo. Ricky Gooddwin, secretário de redação da publicação recorda uma passagem pouco divulgada de Fausto Wolff pelo jornal. “Fausto tinha 15% das ações de O Pasquim. Ele se empenhou diante da diretoria no sentido de que ações fossem dadas também aos anônimos que lá trabalhavam, desde o próprio secretário de redação, ao office-boy, passando pela faxineira e copeira. Como os diretores não estavam a favor da proposta, Fausto decidiu dividir os seus 15% entre todos os anônimos que trabalhavam no jornal”, lembra Ricky. “No final das contas ninguém teve lucro, o jornal acabou nos anos 80, mas o Fausto deu prova concreta de sua generosidade”.
Autor de mais de 20 livros, entre os quais O Ogre e o Passarinho, da série Sinal Aberto, Olympia, premiado em concurso promovido pela Brasil Telecom, A Milésima Segunda Noite, e o Prêmio Jabuti com o romance À mão esquerda.
Irreverente e de humor refinado, Fausto Wolff muitas vezes surpreendia, como aconteceu numa festa de fim de ano promovida pela Associação dos Correspondentes da Imprensa Estrangeira do Rio de Janeiro (ACIE), quando ele foi um dos indicados para personalidade do jornalismo em 2006. Fausto pegou o microfone e cantou integralmente a letra da Internacional.
Junto ao caixão de Fausto Wolff podiam ser vistas uma camisa da Banda de Ipanema, onde ele chegou a ser um dos padrinhos, uma bandeira do Partido Comunista Brasileiro (PCB) e do PDT, partido pelo qual Fausto Wolff concorreu duas vezes a deputado federal.
Analíticos e Continentais, um comentário
Comentário à introdução ao livro Analíticos e continentais, de Franca D’Agostini
- Suas similaridades e divergências –
Texto de apoio: Verdade e Método de Hanz Georg Gadamer
“Não existe esse ser humano em estado neutro que de repente faz uma proposição assertória predicativa. Não existiu um dia esse ser humano que pela primeira vez pronunciou uma frase correta do ponto de vista lingüístico, gramatical. O ser humano, desde sempre, falou dentro de uma história determinada”.
Ernildo Stein
- Suas similaridades e divergências –
Texto de apoio: Verdade e Método de Hanz Georg Gadamer
“Não existe esse ser humano em estado neutro que de repente faz uma proposição assertória predicativa. Não existiu um dia esse ser humano que pela primeira vez pronunciou uma frase correta do ponto de vista lingüístico, gramatical. O ser humano, desde sempre, falou dentro de uma história determinada”.
Ernildo Stein
Duas escolas filosóficas dividem a atenção dos filósofos desde o início do século passado, a saber, analíticos e continentais.
A primeira se prende a uma interpretação do mundo estético e histórico com base no método científico, nas ciências da natureza e pressupõe uma neutralidade por parte do indivíduo que perscruta, que pesquisa, sem identificar-se com o fato ou objeto pesquisado.
A Segunda advoga uma metodologia própria para as ciências do espírito, partindo de um princípio que o indivíduo é histórico e sem os conceitos adquiridos ou os preconceitos, não poderia ele sequer falar em distanciamento para buscar a neutralidade, pois que não teria, sem esses conceitos adquiridos, do que distanciar-se.
Os analíticos supõem que, como pensava Shleiermacher, chegaremos a uma compreensão do mundo usando a hermenêutica como um método científico, o qual nos permite fazer uma descrição do fato histórico e estético alienando-nos do que está sendo estudado, descrito, pesquisado. Com isso, nossa probabilidade de chegar à verdade se compara ao da certeza das ciências naturais ao fim de um experimento, de uma pesquisa. Para Schleiermacher, a hermenêutica é a arte de evitar mal-entendidos e, sendo assim, ao aplicá-la como método, o filósofo não teria dúvidas quanto ao resultado de sua análise.
Já os continentais, seguindo o caminho traçado por Dilthey, pioneiro na tradição continental, discordam radicalmente dos analíticos e defendem uma metodologia para as ciências do espírito ou ciências humanas diferentemente do empregado pelas ciências da natureza. A hermenêutica, para eles, cujo expoente maior parece ser Heidegger, não pode se ater, apenas, ao explicar, ao traduzir, como uma exegese. É necessária uma hermenêutica que não seja reducionista, que não se atenha à linguagem enquanto instrumento de informação, de manipulação. A certeza das ciências naturais não é conhecimento e a hermenêutica que se faz necessária é a que gera conhecimento de mundo e não explicação do que está no mundo, como se a coisa analisada o fosse apenas como objeto à disposição de um cientista que, distanciado, neutro, chegaria à sua certeza a partir de suas experiências e daria seu veredito, diria sua verdade, que deveria ser aceita universalmente.
Ademais, “é impossível - segundo D’Agostini - fixar a universalidade de uma forma, um método ou uma figura, se nos encontramos em frente a uma pluralidade incalculável de fenômenos”. O universal, então, seria uma pretensão. Também para Dilthey, o método das ciências da natureza, ou lógico-analítica, mesmo aplicado às ciências do espírito, ou histórico-hermenêutica não dá conta da totalidade da vida. Aliás, segundo ele, a filosofia “é ‘filosofia das filosofias’, um saber crítico e reflexivo, investigação crítica sobre o esforço cognoscitivo que cada época desenvolve. Não é doutrina, mas indagação sobre as diversas doutrinas em particular; não formula soluções, mas elabora, confronta, avalia as soluções particulares que historicamente se apresentam para a humanidade”. (D’Agostini p.49)
Sendo ciência histórica, a filosofia não pode ser concebida como saber total, universal, válido para todos os homens em todos os tempos. Todavia, ela não pode ser reduzida à objetividade das ciências da natureza. Com efeito, para as ciências da natureza o objeto não tem implicações subjetivas, “pois nos é oferecido como um dado”. Há que haver rigor também nas ciências do espírito, mas a operação é distinta, pois fazemos parte do mundo sobre o qual nos pronunciamos e o objetivo não pode ser causal, nem a produção de leis, mas sim a compreensão do mundo pelo homem que sabe-se um ser histórico, fruto de sua cultura, de seus preconceitos.
Para Gadamer, “são nossos preconceitos que perfazem o nosso ser. (...) Pode-se mostrar que, originalmente, o conceito de preconceito ultrapassa o sentido que lhe damos à primeira vista. Os preconceitos não são necessariamente injustificados e errôneos, de modo a distorcer a verdade”. Com isso ele quer dizer que temos uma consciência histórica e estética porque nos encontramos “dentro de um espaço de ressonância estética e histórica de nossa existência sensitivo-espiritual, mantido pelas vozes que nos alcançam constantemente”. Segundo Gadamer nossa expectativa e disposição para ouvir o novo são trazidas, necessariamente pelo antigo. Os preconceitos são assim, condição prévia para que possamos experimentar qualquer coisa, “para que aquilo que nos vem ao encontro possa nos dizer algo”. Não quer ele dizer com isso que estejamos cercados por um mundo de preconceitos, mas, ao contrário, por termos já um conhecimento é que somos capazes de estranhar o novo. Caso não tivéssemos esse conhecimento anterior, não estranharíamos o novo, pois este não o seria. Seria apenas algo sem significado o que, por certo, não despertaria nosso interesse. Contra o uso da hermenêutica para evitar mal-entendidos, como queria Schleiermacher, Gadamer diz:
“É sempre um mundo já interpretado, um mundo já ordenado em suas relações, no qual a experiência entra como um elemento novo, que destrona o que guiava nossas expectativas, colocando uma nova ordem ao que é destronado. O primeiro elemento não é o mal-entendido e nem a estranheza, de modo que a tarefa primordial e inequívoca seria evitar o mal-entendido. Ao contrário, o assentamento no que é familiar e no acordo possibilita o trânsito para o estranho, a assunção do que vem deste, e com isso a ampliação e enriquecimento de nossa própria experiência de mundo. É assim que se deve compreender a pretensão de universalidade própria da dimensão hermenêutica”. (Gadamer, p.268)
Assim, não podemos, para conhecer, suspender todos os juízos e adotarmos uma postura de neutralidade, como quer a ciência, para que alcancemos a verdade. Segundo ele, “a experiência hermenêutica não consiste em algo que esteja fora e cioso para entrar. Ao contrário, somos tomados por algo e, em virtude disso que nos toma, sentimo-nos abertos para o novo, o outro, o verdadeiro”. Sugere que perguntemos como legitimar o condicionamento hermenêutico de nosso ser frente à existência da ciência moderna, “uma vez que esta se baseia totalmente no princípio da imparcialidade e na ausência de preconceitos”. Gadamer faz uma crítica ao mesmo tempo violenta e irônica da ciência. Mas diz que,
“quando tivermos presente não somente a tradição artística e a tradição histórica dos povos, não apenas o princípio da ciência moderna em suas precondições hermenêuticas, mas o todo de nossa vida de experiência, então creio que conseguiremos integrar de novo também a experiência da ciência em nossa própria experiência universal e humana de vida”. (Idem, p.265)
O abismo entre analíticos e continentais, não obstante, tem quatro elos que ligam as duas correntes: a) a linguagem, que é universal e, como tal, liga todos os seres humanos. As duas esferas que permeiam o pensamento contemporâneo, por mais dicotômicas, têm, na linguagem, o motivo de ser, não obstante para os analíticos a linguagem seja um instrumento e, para os continentais, ela seja, como dizia Heidegger, a morada do ser; b) em comum, também, entre as duas escolas, é a tarefa de eliminar a metafísica (os analíticos a partir do Círculo de Viena e os continentais, seguidores de Heidegger (embora o discurso sobre o fim da filosofia seja anterior ao século XX); e c) por fim, tanto analíticos como continentais tratam da questão do sujeito, sendo ele sujeito da ciência e da filosofia para os analíticos ou como fio condutor filosófico do debate para os continentais.
Para D’Agostini (que prefere denominar o que entendo como elo de questões que unem as duas correntes no debate filosófico), são três os temas dominantes que perpassam as obras dos filósofos analíticos e continentais: a) a questão do sujeito; b) a questão da metafísica e c) a questão do relativismo, que “diz-nos que a pluralidade das linguagens e a historicidade das aquisições teóricas tornam inadequado o esforço filosófico de dar lugar a um saber universal, em condições de falar da totalidade dos entes de modo definitivo e exaustivo”. Segundo D’Agostini, a imagem da filosofia contemporânea nasce dessas limitações e é, pois, nessas, que podemos vê-la mais autenticamente espelhada. Elas encaminham seguramente para o “fim” de um certo paradigma filosófico fundado na tripartição sujeito-objeto-método (eu, a coisa, o meu modo de considerá-la), mas também à emergência de novas premissas teóricas, ou como tem sido dito, à “reconquista” de antigas formas de pensamento”.
O problema da filosofia contemporânea, pelo menos o que acredito estar implícito nos textos analisados, é ontológico. Não mais como na tradição, todavia. Porém, como reconheceu Gadamer, vivemos na era da técnica. Então, como restituir as ordenações de nosso ser? A tarefa da filosofia é reconduzir o nosso mundo “às ordenações fundamentais de nosso ser”, pois o mundo está à disposição e arbítrio da ciência.
Com efeito, nossa história de vida e nosso destino estão à mercê da “autoridade intocável e anônima representada pela voz da ciência”, diz ainda Gadamer, ressaltando o papel da linguagem que hoje está ordenada, vulgarizada e imposta pela ciência, mas que havemos de retomá-la, pois “a linguagem constitui-se no modo fundamental de realização de nosso ser-no-mundo, a forma de constituição de mundo que tudo envolve”. O lugar da linguagem, portanto, é na estrutura fundamental de nosso ser e não na ciência, que é arbitrária.
Gadamer, reconhecendo que o nivelamento da linguagem pela ciência é algo difícil de ser detido, propõe, como tarefa comum dos homens, a criação de uma linguagem autêntica. Para ele, temos que criar uma linguagem que tenha algo a dizer. Esta seria a tarefa da filosofia nesses novos tempos.
domingo, 31 de agosto de 2008
O temor da angústia
“Por fecharem os olhos e dormirem, por consentirem em ser enganados pelas aparências, os homens em toda parte estabelecem e confirmam suas vidas diárias de rotina e hábito em cima de fundações puramente ilusórias. Crianças que brincam de viver, discernem com mais clareza que os adultos a verdadeira lei da vida e suas relações, enquanto estes fracassam sem conseguir vivê-la condignamente, embora pensem que a experiência, isto é, o fracasso os tornou mais sábios”. (H.Thoreau: Walden ou a vida nos bosques, p.94-99).
Com efeito, nos tempos modernos atuais o ser humano procura fugir de si próprio, temendo a angústia, gastando o tempo para não vivê-lo, pois vivê-lo implica em viver o instante e não apenas o passado, fazendo projeções para o futuro. Viver o instante é olhar-se no espelho e conseguir enxergar-se. Não a fantasia que faz sobre si mesmo, mas sim, ver-se num tempo presente e constatar que fugir do tempo, gastando-o para não vivê-lo, é causar a si próprio um mal-estar, é ser um outro, criado como imagem ideal de si, o que faz com todos sejam atores, com suas personas. Tirá-las é cair na real, é sentir o tempo e sua insignificância ante um tempo cósmico. É sentir-se um grão de areia no universo. É sentir-se um nada, o que levaria a angústia. Tirar essa máscara é arriscar-se a constatar que a vida que se vive não tem sentido. É “confirmar suas vidas diárias de rotina e hábito em cima de fundações puramente ilusórias”, segundo Thoreau.
Somos desde sempre (enquanto existência) formados ou pré-figurados e vivemos nesta pertença, configurando nossas visões de mundo com base na tradição, na pré-figuração. Mas diante da brevidade da vida ante a imensidão do tempo cósmico, com a certeza de que a morte é inevitável, criamos uma linguagem que traduz nossas lamentações. Lamentações justamente porque vivemos do passado sonhando com um futuro como se fôssemos imortais, o que gera um paradoxo, pois temos a morte como certa. Evitamos discuti-la, pensá-la, como se a morte fosse algo separado da nossa existência e que, como muito bem interpretou Ingmar Bergman em O sétimo selo (quando uma personagem, na tentativa de fugir da morte iminente joga xadrez com ela e ilude-se acreditando que a vencerá, por ser um exímio jogador), podemos fugir dela. Evitamos pensar e agir criticamente, re-figurando nossa vida. Até porque re-figurar necessita de mediação que só ocorre via cultura e, para tanto, faz-se necessário um outro ou algo que esteja de certa maneira ligado aos extremos. Necessitamos de ampliar nossa gramática para, através da assimilação e compreensão dos símbolos da cultura, aumentar nossa capacidade de compreensão, que só poderá se realizar via linguagem.
Re-figurar a existência é provocar uma dissonância na nossa gramática do tempo, uma dissonância na nossa configuração. É romper com o relato histórico organizado cronologicamente. É criar uma nova trama, um enredo que rompa com as barreiras criadas com a configuração, é criar uma nova gramática, ampliando o mundo, o que propiciará novas interpretações do passado e novas perspectivas de futuro. É proporcionar condições a nós próprios de rompermos com verdades estabelecidas, calcificadas. Contudo a re-figuração é também potencializadora da dor, da angústia, como alguém que, de repente, “cai em si” e, sentindo o peso da existência, prostra-se, porque, naquele instante, sente que nada fez sentido, que estava vivendo num mundo de ilusões. Cair em si significa olhar a si mesmo sem máscaras. Significa abrir-se para novas alternativas, extasiando-se com a luz; ou, então, aterrorizado com as possibilidades de novas visões de mundo, sentindo-se como que lançado no desconhecido, o homem retorna à caverna e refugia-se novamente no mundo das sombras.
Para compreender o paradoxo do tempo, entre a brevidade da vida e o tempo cósmico:
Paul Ricoeur nos diz, com propriedade, que o tempo humano é sempre um tempo relatado. Com efeito, só uma consciência pode falar de tempo. É na linguagem que a experiência cultural do tempo adquire forma definitiva. No entanto, o ser humano não resolve a questão do tempo quando o relata, de acordo com sua cultura – sim, porque o tempo não é relatado ou “medido” igualmente por todas as culturas; ao contrário, há uma diversidade de relatos que revelam as discrepâncias sobre a “passagem do tempo”. Paul Ricoeur trata da discordância entre duas perspectivas: a) tempo humano, cronometrado e vivido e b) tempo cósmico, imenso, eterno. E o principal significado dessa discordância residiria, segundo ele, no aspecto qualitativo. E este estaria relacionado à “experiência cultural do tempo”. Vejamos o que o autor quis dizer com isso:
Em relação ao tempo cósmico, anterior ao ser humano ou à consciência, não se pode falar de passado, presente e futuro. Muito menos num “agora”, pois o “agora” só existe se vivido por uma consciência. Esse tempo vivido é o único que faz sentido para o ser humano que, não obstante, sente a angústia do paradoxo: a brevidade da vida na imensidade do tempo cósmico, sem fim, eterno. Como não lhe é dada a faculdade do esquecimento, o que, se possível, o libertaria do passado, o ser humano vive de lamentações, ou seja, de relatos do passado, geralmente presos a heranças estagnadas, esclerosadas ou mortas, que fazem da experiência vivida um tempo histórico pobre, medíocre, insignificante. Para dar significação à existência, ao tempo vivido (qualitativo), deveremos buscar as mediações simbólicas proporcionadas pela cultura e enraizar na força do presente, que Ricoeur chama “vigiläncia”, o “ainda” do passado recente e o “já” do futuro iminente.
Assim, sem refutar as lamentações, as quais o poeta transforma em arte, o ser humano pode, pela “experiência da iniciativa e da vigilância, que constituem a força do presente” compensar a lamentação. Ao relatar os acontecimentos (ausentes) estamos na esfera da história coletivamente vivida e cuja narrativa nos afeta na nossa singularidade. A nós resta compreendermos as configurações e tornarmos o nosso presente em força de iniciativa e refigurarmos a nossa existência urdindo uma nova trama para o nosso tempo-calendário, deixando-nos ser mordidos pelo tempo e dando sentido às nossas vidas ou, por outro lado, aceitarmos passivamente as configurações e não qualificarmos o nosso tempo, deixando-nos salvos das mordidas do tempo e presos à nostalgia do passado e aos projetos futuros.
Com efeito, nos tempos modernos atuais o ser humano procura fugir de si próprio, temendo a angústia, gastando o tempo para não vivê-lo, pois vivê-lo implica em viver o instante e não apenas o passado, fazendo projeções para o futuro. Viver o instante é olhar-se no espelho e conseguir enxergar-se. Não a fantasia que faz sobre si mesmo, mas sim, ver-se num tempo presente e constatar que fugir do tempo, gastando-o para não vivê-lo, é causar a si próprio um mal-estar, é ser um outro, criado como imagem ideal de si, o que faz com todos sejam atores, com suas personas. Tirá-las é cair na real, é sentir o tempo e sua insignificância ante um tempo cósmico. É sentir-se um grão de areia no universo. É sentir-se um nada, o que levaria a angústia. Tirar essa máscara é arriscar-se a constatar que a vida que se vive não tem sentido. É “confirmar suas vidas diárias de rotina e hábito em cima de fundações puramente ilusórias”, segundo Thoreau.
Somos desde sempre (enquanto existência) formados ou pré-figurados e vivemos nesta pertença, configurando nossas visões de mundo com base na tradição, na pré-figuração. Mas diante da brevidade da vida ante a imensidão do tempo cósmico, com a certeza de que a morte é inevitável, criamos uma linguagem que traduz nossas lamentações. Lamentações justamente porque vivemos do passado sonhando com um futuro como se fôssemos imortais, o que gera um paradoxo, pois temos a morte como certa. Evitamos discuti-la, pensá-la, como se a morte fosse algo separado da nossa existência e que, como muito bem interpretou Ingmar Bergman em O sétimo selo (quando uma personagem, na tentativa de fugir da morte iminente joga xadrez com ela e ilude-se acreditando que a vencerá, por ser um exímio jogador), podemos fugir dela. Evitamos pensar e agir criticamente, re-figurando nossa vida. Até porque re-figurar necessita de mediação que só ocorre via cultura e, para tanto, faz-se necessário um outro ou algo que esteja de certa maneira ligado aos extremos. Necessitamos de ampliar nossa gramática para, através da assimilação e compreensão dos símbolos da cultura, aumentar nossa capacidade de compreensão, que só poderá se realizar via linguagem.
Re-figurar a existência é provocar uma dissonância na nossa gramática do tempo, uma dissonância na nossa configuração. É romper com o relato histórico organizado cronologicamente. É criar uma nova trama, um enredo que rompa com as barreiras criadas com a configuração, é criar uma nova gramática, ampliando o mundo, o que propiciará novas interpretações do passado e novas perspectivas de futuro. É proporcionar condições a nós próprios de rompermos com verdades estabelecidas, calcificadas. Contudo a re-figuração é também potencializadora da dor, da angústia, como alguém que, de repente, “cai em si” e, sentindo o peso da existência, prostra-se, porque, naquele instante, sente que nada fez sentido, que estava vivendo num mundo de ilusões. Cair em si significa olhar a si mesmo sem máscaras. Significa abrir-se para novas alternativas, extasiando-se com a luz; ou, então, aterrorizado com as possibilidades de novas visões de mundo, sentindo-se como que lançado no desconhecido, o homem retorna à caverna e refugia-se novamente no mundo das sombras.
Para compreender o paradoxo do tempo, entre a brevidade da vida e o tempo cósmico:
Paul Ricoeur nos diz, com propriedade, que o tempo humano é sempre um tempo relatado. Com efeito, só uma consciência pode falar de tempo. É na linguagem que a experiência cultural do tempo adquire forma definitiva. No entanto, o ser humano não resolve a questão do tempo quando o relata, de acordo com sua cultura – sim, porque o tempo não é relatado ou “medido” igualmente por todas as culturas; ao contrário, há uma diversidade de relatos que revelam as discrepâncias sobre a “passagem do tempo”. Paul Ricoeur trata da discordância entre duas perspectivas: a) tempo humano, cronometrado e vivido e b) tempo cósmico, imenso, eterno. E o principal significado dessa discordância residiria, segundo ele, no aspecto qualitativo. E este estaria relacionado à “experiência cultural do tempo”. Vejamos o que o autor quis dizer com isso:
Em relação ao tempo cósmico, anterior ao ser humano ou à consciência, não se pode falar de passado, presente e futuro. Muito menos num “agora”, pois o “agora” só existe se vivido por uma consciência. Esse tempo vivido é o único que faz sentido para o ser humano que, não obstante, sente a angústia do paradoxo: a brevidade da vida na imensidade do tempo cósmico, sem fim, eterno. Como não lhe é dada a faculdade do esquecimento, o que, se possível, o libertaria do passado, o ser humano vive de lamentações, ou seja, de relatos do passado, geralmente presos a heranças estagnadas, esclerosadas ou mortas, que fazem da experiência vivida um tempo histórico pobre, medíocre, insignificante. Para dar significação à existência, ao tempo vivido (qualitativo), deveremos buscar as mediações simbólicas proporcionadas pela cultura e enraizar na força do presente, que Ricoeur chama “vigiläncia”, o “ainda” do passado recente e o “já” do futuro iminente.
Assim, sem refutar as lamentações, as quais o poeta transforma em arte, o ser humano pode, pela “experiência da iniciativa e da vigilância, que constituem a força do presente” compensar a lamentação. Ao relatar os acontecimentos (ausentes) estamos na esfera da história coletivamente vivida e cuja narrativa nos afeta na nossa singularidade. A nós resta compreendermos as configurações e tornarmos o nosso presente em força de iniciativa e refigurarmos a nossa existência urdindo uma nova trama para o nosso tempo-calendário, deixando-nos ser mordidos pelo tempo e dando sentido às nossas vidas ou, por outro lado, aceitarmos passivamente as configurações e não qualificarmos o nosso tempo, deixando-nos salvos das mordidas do tempo e presos à nostalgia do passado e aos projetos futuros.
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