“Por fecharem os olhos e dormirem, por consentirem em ser enganados pelas aparências, os homens em toda parte estabelecem e confirmam suas vidas diárias de rotina e hábito em cima de fundações puramente ilusórias. Crianças que brincam de viver, discernem com mais clareza que os adultos a verdadeira lei da vida e suas relações, enquanto estes fracassam sem conseguir vivê-la condignamente, embora pensem que a experiência, isto é, o fracasso os tornou mais sábios”. (H.Thoreau: Walden ou a vida nos bosques, p.94-99).
Com efeito, nos tempos modernos atuais o ser humano procura fugir de si próprio, temendo a angústia, gastando o tempo para não vivê-lo, pois vivê-lo implica em viver o instante e não apenas o passado, fazendo projeções para o futuro. Viver o instante é olhar-se no espelho e conseguir enxergar-se. Não a fantasia que faz sobre si mesmo, mas sim, ver-se num tempo presente e constatar que fugir do tempo, gastando-o para não vivê-lo, é causar a si próprio um mal-estar, é ser um outro, criado como imagem ideal de si, o que faz com todos sejam atores, com suas personas. Tirá-las é cair na real, é sentir o tempo e sua insignificância ante um tempo cósmico. É sentir-se um grão de areia no universo. É sentir-se um nada, o que levaria a angústia. Tirar essa máscara é arriscar-se a constatar que a vida que se vive não tem sentido. É “confirmar suas vidas diárias de rotina e hábito em cima de fundações puramente ilusórias”, segundo Thoreau.
Somos desde sempre (enquanto existência) formados ou pré-figurados e vivemos nesta pertença, configurando nossas visões de mundo com base na tradição, na pré-figuração. Mas diante da brevidade da vida ante a imensidão do tempo cósmico, com a certeza de que a morte é inevitável, criamos uma linguagem que traduz nossas lamentações. Lamentações justamente porque vivemos do passado sonhando com um futuro como se fôssemos imortais, o que gera um paradoxo, pois temos a morte como certa. Evitamos discuti-la, pensá-la, como se a morte fosse algo separado da nossa existência e que, como muito bem interpretou Ingmar Bergman em O sétimo selo (quando uma personagem, na tentativa de fugir da morte iminente joga xadrez com ela e ilude-se acreditando que a vencerá, por ser um exímio jogador), podemos fugir dela. Evitamos pensar e agir criticamente, re-figurando nossa vida. Até porque re-figurar necessita de mediação que só ocorre via cultura e, para tanto, faz-se necessário um outro ou algo que esteja de certa maneira ligado aos extremos. Necessitamos de ampliar nossa gramática para, através da assimilação e compreensão dos símbolos da cultura, aumentar nossa capacidade de compreensão, que só poderá se realizar via linguagem.
Re-figurar a existência é provocar uma dissonância na nossa gramática do tempo, uma dissonância na nossa configuração. É romper com o relato histórico organizado cronologicamente. É criar uma nova trama, um enredo que rompa com as barreiras criadas com a configuração, é criar uma nova gramática, ampliando o mundo, o que propiciará novas interpretações do passado e novas perspectivas de futuro. É proporcionar condições a nós próprios de rompermos com verdades estabelecidas, calcificadas. Contudo a re-figuração é também potencializadora da dor, da angústia, como alguém que, de repente, “cai em si” e, sentindo o peso da existência, prostra-se, porque, naquele instante, sente que nada fez sentido, que estava vivendo num mundo de ilusões. Cair em si significa olhar a si mesmo sem máscaras. Significa abrir-se para novas alternativas, extasiando-se com a luz; ou, então, aterrorizado com as possibilidades de novas visões de mundo, sentindo-se como que lançado no desconhecido, o homem retorna à caverna e refugia-se novamente no mundo das sombras.
Para compreender o paradoxo do tempo, entre a brevidade da vida e o tempo cósmico:
Paul Ricoeur nos diz, com propriedade, que o tempo humano é sempre um tempo relatado. Com efeito, só uma consciência pode falar de tempo. É na linguagem que a experiência cultural do tempo adquire forma definitiva. No entanto, o ser humano não resolve a questão do tempo quando o relata, de acordo com sua cultura – sim, porque o tempo não é relatado ou “medido” igualmente por todas as culturas; ao contrário, há uma diversidade de relatos que revelam as discrepâncias sobre a “passagem do tempo”. Paul Ricoeur trata da discordância entre duas perspectivas: a) tempo humano, cronometrado e vivido e b) tempo cósmico, imenso, eterno. E o principal significado dessa discordância residiria, segundo ele, no aspecto qualitativo. E este estaria relacionado à “experiência cultural do tempo”. Vejamos o que o autor quis dizer com isso:
Em relação ao tempo cósmico, anterior ao ser humano ou à consciência, não se pode falar de passado, presente e futuro. Muito menos num “agora”, pois o “agora” só existe se vivido por uma consciência. Esse tempo vivido é o único que faz sentido para o ser humano que, não obstante, sente a angústia do paradoxo: a brevidade da vida na imensidade do tempo cósmico, sem fim, eterno. Como não lhe é dada a faculdade do esquecimento, o que, se possível, o libertaria do passado, o ser humano vive de lamentações, ou seja, de relatos do passado, geralmente presos a heranças estagnadas, esclerosadas ou mortas, que fazem da experiência vivida um tempo histórico pobre, medíocre, insignificante. Para dar significação à existência, ao tempo vivido (qualitativo), deveremos buscar as mediações simbólicas proporcionadas pela cultura e enraizar na força do presente, que Ricoeur chama “vigiläncia”, o “ainda” do passado recente e o “já” do futuro iminente.
Assim, sem refutar as lamentações, as quais o poeta transforma em arte, o ser humano pode, pela “experiência da iniciativa e da vigilância, que constituem a força do presente” compensar a lamentação. Ao relatar os acontecimentos (ausentes) estamos na esfera da história coletivamente vivida e cuja narrativa nos afeta na nossa singularidade. A nós resta compreendermos as configurações e tornarmos o nosso presente em força de iniciativa e refigurarmos a nossa existência urdindo uma nova trama para o nosso tempo-calendário, deixando-nos ser mordidos pelo tempo e dando sentido às nossas vidas ou, por outro lado, aceitarmos passivamente as configurações e não qualificarmos o nosso tempo, deixando-nos salvos das mordidas do tempo e presos à nostalgia do passado e aos projetos futuros.
domingo, 31 de agosto de 2008
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